Playlists PCP: Class of ’91 (Parte 01)

1991 foi um ano ímpar para a música, e isso não se discute. Rock, eletrônica, hip hop, pop, não importa para qual gênero ou estilo se olhe, o desenho padrão do que vinha sendo feito até então foi distorcido, esticado, derretido e definitivamente reconfigurado. Basta lembrar que foi em setembro daquele ano que o Nirvana pôs no mundo “Smells like teen spirit” e poucos dias depois Nevermind, empurrando o underground goela abaixo do mainstream. Ou vice-versa.

Mantendo-se no universo das camisas xadrez, há 25 anos o Pearl Jam lançava Ten, seu primeiro disco e sucesso instantâneo mundo afora; e o Soundgarden batia cartão na MTV e nas ‘rádios de rock’ com “Outshined” e “Jesus Christ pose”, faixas de Badmotorfinger. Mas correndo por fora, ali mesmo nas cercanias de Seattle, duas outras bandas (preferidas por aqui), ambas já com uma boa estrada percorrida também punham grandes álbuns no mercado: o Screaming Trees, do homem com voz de trovão Mark Lanegan e os pais do bêbados do grunge, Mudhoney, lançavam respectivamente Uncle anesthesia e Every good boy deserves fudge, que se não fizeram tanto sucesso quanto seus contemporâneos ‘similares’, levaram seus autores a voos mais longos e altos (os Trees estourariam no ano seguinte com Sweet oblivion e o Mudhoney…bem, o Mudhoney sempre foi o Mudhoney, e isso basta).

Saindo da região de Washington mas ainda sob a benção das guitarras (muito) distorcidas, 1991 viu surgir, já em seus últimos suspiros, o disco que é considerado – não sem razão – a pedra fundamental do shoegaze. Loveless, do My Bloody Valentine, saiu em novembro e elevou a enésima potência o barulho que a banda do chato Kevin Shields havia feito em Isn’t anything; até hoje é o combustível mais utilizado pela molecada que gosta de olhar pros sapatos enquanto esmerilha sua guitarra. Mas não é o único.

Além dos Valentines não foram poucos os que ousaram espetar seus instrumentos em todos os tipos de pedais que pudessem conseguir e se esconder do mundo atrás de uma muralha de distorção e feedback lá em 91. No meio do ano o Chapterhouse debutava pela Dedicated com o sensacional Whirpool, adicionando batidas dançantes ao caldo psicodélico dos gazers e lhes apresentando um de seus maiores hinos, a hipnótica “Pearl”. Três meses depois e há 40 minutos de Reading (cidade natal do Chapterhouse), em Oxford o Swervedriver – que tocou em SP neste ano, me levando a um sem número de flashbacks – também debutava com Raise, lançado pelo selo-mãe do shoegaze europeu, a Creation Records de Allan McGee. Longe dessa barulheira, mas não muito, ainda na terra da rainha uma banda chamada Blur estreava com Leisure, seu primeiro álbum, pegando carona tanto no shoegaze quanto no madchester para dar a primeira injeção de vitamina no que se tornaria o monstro de duas cabeças chamado britpop (a segunda cabeça, claro, é o Oasis).

Voltando à América do Norte, especificamente ao país das oportunidades, outros jovens (ou nem tanto) empunhavam seus instrumentos e despejavam nas prateleiras grandes discos há 25 anos. No estado de Massachussets dois dos pilares do indie rock e expoentes do chamado ‘american underground’ soltavam filhos pelo planeta: de Amherst os já veteranos Dinosaur Jr lançavam seu quarto álbum, primeiro fora da lendária SST e sem Lou Barlow, chamado Green mind (que abre com um dos clássicos da banda, “The wagon”); e da capital Boston os Pixies, já esgotados e próximos do fim entregavam o que seria até então seu último trabalho, Trompe le monde. O disco é praticamente um solo do gorducho Black Francis, mas nele há duas de minhas canções favoritas dos elfos, “Alec Eiffel” – uma ‘homenagem’ cheia de sarcasmo ao projetista da torre Eiffel e da estátua da liberdade – e a bela “Letter to Memphis”.

Enquanto isso a cidade de Buffalo em Nova Iorque era encoberta pelo nevoeiro lisérgico de Yerself is steam, debute dos malucos Mercury Rev. Dois vídeos deste álbum, “Chasing a bee” e “Carwash hair” rodavam bastante pelo Lado B da finada MTV, e ao mesmo tempo em que o disco era lançado o vocalista e guitarrista dos Revs, Jonathan Donahue, assumia quase definitivamente a guitarra nos Flaming Lips. Quase porque alguns anos depois voltaria a se dedicar integralmente à sua ‘banda de raíz’ (que tocou por aqui e foi vista por mim em 2005, no mesmo Curitiba Pop Festival que também trouxe Weezer e Raveonettes).

Em dois outros estados dos EUA duas verdadeiras instituições do rock alternativo e do do it yourself ajudavam 1991 a se tornar um ano memorável. Em Chapell Hill o Superchunk colocava na roda seu segundo disco, No pocky for kitty, lançado via Matador Records e posteriormente relançado pela gravadora da própria banda, a igualmente seminal Merge Records. Sete anos depois tocariam pela primeira vez em terra brasilis, numa noite memorável na Broadway, aqui em São Paulo, com abertura dos Pin Ups e…bem, isso é história pra outro dia. Sigamos em frente, de volta à Washington, direto para Olympia, onde o Beat Happening do grande Calvin Johnson tirava da manga Dreamy, seu quarto e penúltimo disco, que saiu – assim como todos outros do grupo – pela K Records, selo fundado pelo próprio Johnson no distante ano de 1982. 1982 que aliás viu nascer a primeira compilação oficial da Sub Pop, então um pequeno fanzine que se tornaria a gravadora que muito tempo depois se tornaria conhecida como o berço do grunge. E quem estava lá, na fundação da Sub Pop? Calvin Johnson, claro.

Após todo esse rolê pela terra do tio Sam viajemos de volta ao Reino Unido, para a gelada Glasgow, onde o Primal Scream rompia com seu passado e revolucionava a música contemporânea quebrando de uma vez as barreiras entre o rock e a dance music: nascia ali, em 23 de setembro de 91, Screamadelica, um álbum movido à acid house, rock stoniano, dub e muito MDMA. Mas mais que isso este foi o disco mudou minha vida, se tornou a bíblia que me acompanha em todos os momentos desde que o descobri, assim meio que por acaso, numa prateleira do Carrefour…ver os Screamers tocando-o na íntegra foi uma experiência renovadora, daquelas que os religiosos fervorosos devem ter ao menos uma vez para fortalecer sua fé.

Não por acaso Screamadelica foi o álbum escolhido para encerrar esse texto, o primeiro sobre o mágico ano de 1991. Até o final deste 2016 que corre rápido em direção a seu fim, um segundo texto, acompanhado claro de mais uma playlist especial, vai tentar mostrar mais um pouco do que aconteceu de tão especial há 25 anos atrás.

Pode esperar porque ainda tem muita, muita coisa boa vindo nesse túnel do tempo. Aperte o play e tenha uma boa viagem!

 

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Um comentário sobre “Playlists PCP: Class of ’91 (Parte 01)

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