Joy Division – Unknown Pleasures (1979)

unknownpleasures

 

O que artistas tão díspares quanto Interpol, Legião Urbana, The Killers e Alien Sex Fiend têm em comum? Todos eles pagam ou pagaram tributo a um dos mais influentes e seminais grupos da história recente da música, o Joy Division.

Formada entre o final de 1976 e o começo de 1977 em Manchester, no calor da explosão punk, a banda – antes chamada Warsaw, nome inspirado na música “Warsawa”, de David Bowie – foi a primeira a incorporar à insurgência do punk rock a melancolia, a solidão e o desespero que dividiam espaço na vida dos jovens com a insatisfação, o tédio, o desprezo pela ordem social e o ódio generalizado. Também foi a primeira a desacelerar o ritmo frenético de Sex Pistols, Clash e Buzzcocks, cadenciá-lo e injetar nos quatro acordes obrigatórios os então desprezados sintetizadores.

Em pouco mais de três anos de vida, o Joy Division deixou cicatrizes profundas na face da música, que continuam aí para quem quiser ver, frequentemente reabertas por adolescentes que vivem à margem do esquema de falsa e obrigatória felicidade que domina este século XXI. Nesse curto período de tempo, lançaram apenas dois álbuns oficiais, pela essencial Factory Records. E é o primeiro deles, hoje com 34 anos, que recebe agora uma devida homenagem.

 

 

Unknown pleasures é um disco, mas é também um registro, um atestado de um tempo, lugar e situação. Quando Ian Curtis, Bernard Albrecht (Sumner), Peter Hook e Stephen Morris entraram nos Strawbery Studios para gravá-lo, levados pela empolgação do lendário agitador/empresário/reporter Tony Wilson, não faziam a menor ideia do que estavam criando. As dez faixas sintetizam toda angústia, tensão e ansiedade presentes na viradas dos anos 70 para os 80, capturando o espírito de uma época em que a guerra fria ainda não fazia parte dos livros de história e as sombras do nazismo ainda escureciam a Europa.

Sob a tutela do produtor Martin Hannett – espécie de Lee Perry do rock inglês, ou ainda de Lars von Trier da música – os quatro foram levados à exaustão física e psicológica, extraindo de seus instrumentos (respectivamente voz, guitarra, baixo e bateria) o sumo da sonoridade que viria a caracterizar toda a cena pós-punk.

 

 

É nesse clima cinzento que “Disorder” abre Unknown pleasures. Como ela, “Shadowplay”, “Interzone” e “She’s lost control” deixam claro que o que ouvimos aqui não é simplesmente um álbum punk: a bateria tribal de Morris dá o ritmo enquanto guitarra, baixo e vocal são colocados ao lado de efeitos variados que vão de ecos e barulho de vento a vidros sendo quebrados, passando por diferentes timbres sempre imaginados e testados por Hannett (a bateria de “She’s lost control” foi toda gravada fora do estúdio, separada dos demais instrumentos). Essas são as três faixas mais aceleradas do disco…

 

“Day of the lords”, a segunda música do álbum, abre caminho para “Candidate”, “New dawn fades” – com seu riff de guitarra pesado e marcante – e “I remember nothing”, as três canções de Unknown pleasures que inauguram o rock gótico e lhe dão a forma que ele viria a ter dali em diante: lento, intenso e gelado.

No meio de toda essa catarse obscura, “Insight” e “Wilderness” são momentos que podemos chamar de dançantes. Mas isso é redundante, já que Ian Curtis, o torturado vocalista do Joy Division, tinha como uma de suas marcas registradas seu estilo epilético de dançar, se contorcendo em violentos espasmos. Tinha. Porque dois meses antes do lançamento do segundo álbum do Joy Division (Closer) e um dia antes da banda sair em sua primeira turnê internacional (para os EUA) Curtis – que realmente sofria de epilepsia, além de ser depressivo – se enforcou e foi achado morto em sua casa.

 

 

Difícil mensurar a importância de Unknown pleasures e do Joy Division para a música contemporânea. A banda plantou as sementes do pós-punk que nos anos seguintes varreria o underground e atingiria o mainstream – até hoje reverberando em grupos como os citadas no início do texto.

De seu embrião – Sumner, Hook e Morris – surgiu o New Order, pioneiros em fundir rock e batidas dançantes. O mesmo New Order inaugurou o clube Haçienda, de onde a febre do acid house se espalhou mundo afora, evoluindo para a música eletrônica atual, que volta e meia se funde novamente ao rock, assim dando continuidade a essa longa história, contada em detalhes no mockumentary “24h Party People” (aqui no Brasil chamou “A Festa Nunca Termina” e é obrigatório para quem gosta de música) e no belo filme “Control”. E que nunca terá fim.

 

 

PS: O nome Joy Division vem do livro “House of Dolls”, de Karol Cetinsky, onde a ‘divisão da alegria’ é o nome dado para a área onde as mulheres judias eram mantidas prisioneiras e oferecidas aos nazistas.

PS2: A capa de Unknown pleasures é uma obra de Peter Saville, que retrata a morte de uma estrela captada por um medidor de pulsos.

 

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13 comentários sobre “Joy Division – Unknown Pleasures (1979)

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