Alejandro Escovedo – The Crossing (2018)

 

Por Jean Carlo Martins

 

Não sei dirigir. Nunca liguei pra carro e não sei distinguir um modelo de outro. Mas alguns discos e músicas me despertam a vontade de pegar uma estrada, baixar o vidro e deixar o vento soprar no cabelo, como um personagem de uma música do Bruce Springsteen. Esse é o caso do disco The Crossing, lançado pelo veterano Alejandro Escovedo no dia 14 de setembro via Yep Roc.

De origem mexicana, o compositor iniciou sua carreira no final da década de 70 na cena punk latina da Costa Oeste norte-americana em bandas como True Believers, Nuns e depois Rank and File, esta última com uma forte pegada roots rock/alternative country. No começo dos anos 90, gravou dois álbuns já clássicos, Gravity e Thirteen Years, que traziam músicas com alta carga emocional, vocais derramados e instrumental que aprofundava a mistura de suas antigas bandas.

Escovedo é um sobrevivente. O histórico de drogas e bebida resultou numa Hepatite C, diagnosticada nos anos 2000. Fodido e sem grana para pagar as despesas médicas – vítima de um sistema de saúde perverso como o dos EUA antes de Obama – contou com a ajuda de amigos (John Cale, Ian Hunter, Cowboy Junkies, Son Volt, Jayhawks etc), que organizaram um tributo ‘Por Vida’, com a intenção de pagar as contas do hospital.

Agora, já recuperado, ele se juntou a uma banda italiana, Don Antonio, em seu 16° disco solo.
O album acompanha a saga de dois jovens, um mexicano e outro italiano, que vão para os EUA atrás do sonho de viver de música. As letras, na maior parte das vezes autobiográficas, logo revelam a desilusão e desesperança com a realidade que os dois imigrantes enfrentam. Isso de um cara que às vezes era confundido com alguém da manutenção na casa de show que ia tocar ou tinha que ouvir pedidos de ‘toca La Bamba’ em seus shows. Mexicano errado, cabrón.

 

 

Letrista de mão cheia, Escovedo consegue zoar U2 e falar sobre a paixão por Stooges (‘We love Stooges and hate U2’) e citar Jack Kerouac e Octavio Paz em apenas uma música, “Outlaw for You”, um dos pontos altos do disco. Em outra, “Texas is my Mother”, absolutamente emocional, lembra da sua cidade natal na figura de sua mãe. “Sonica USA”, que conta com a participação de Wayne Kramer (MC5), fala sobre a descoberta do punk, homenageando uma banda californiana conhecida como os Ramones mexicanos: ‘I saw The Zeros and they looked like me. This is the american I wanted to be’. Um disco relevante em tempos de Trumps e muros.

Quem quiser saber mais sobre o disco, vale a pena ler essa matéria da NPR.

E apesar de sua importância e influência, Alejandro Escovedo ainda se mantém como um segredo guardado. Mas nunca é tarde para embarcar nesse carro e pegar a estrada.

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