
Devo admitir que agora, exatamente agora, no momento em que escrevo este pequeno texto meus olhos estão marejados. Inevitável. Música é foda, e talvez a ideia de escrever relatos sobre as canções da minha vida tenha sido recurso psicológico pra extravasar algo represado, uma sessão de terapia movida a acordes, beats e emoções.
Fim do século passado, ainda alguns anos longe da devastação emocional que me levaria – pra usar uma expressão bem popular – ao fundo do poço. Amor e esperança era o que havia na vida e no ar, a despeito de toda loucura que cercava a virada do milênio, sua era de aquário, bug geral, apocalipse e tudo mais.
Havia abraços apertados em noites geladas, shows barulhentos e DJs hipnóticos, dancinhas bêbadas em clubes lotados, sessões suadas de skate, tardes preguiçosas assistindo MTV – porque a música move o homem e a MTV movia a música. E havia, nessas mesmas tardes preguiçosas assistindo a essa mesma MTV uma vinhetinha que grudou no ponto do cérebro responsável pela memória afetiva – ou talvez direto no coração, o que é bem mais provável -, vinhetinha essa feita pela Silvana Mello, toda cheia de referências pop, e que começava com uma música linda e dolorida: era ” A Quarter to Three”, das meninas do Sleater-Kinney.
No meio da vinheta havia ainda uma canção do Seaweed, mas foi essa música das Kinneys que atravessou os anos e que ainda hoje volta e meia – como agora – me arranca lágrimas dos olhos. Pode chamar de nostalgia, de saudosismo, como quiser. Eu chamo de amor pra vida toda. Fim.

