Marika Hackman – We Slept At Last (2015)

Por Camila Di Franco

Em seu primeiro álbum, Marika Hackman ganha espaço na cena indie/folk com álbum-conceito amplo e musicalmente diverso.

Desde o início de sua carreira, Marika Hackman nunca escondeu o seu lado sombrio nos temas de suas canções. Porém, ao ouvir seu último trabalho é fácil perceber a evolução da cantora ao comparar a jovem meio perdida de 20 anos à artista que Marika é hoje. A cantora, que começou sua carreira na música com a ajuda de sua amiga, a modelo Cara Delevingne, foi comparada a grandes vozes do nu-folk como Joanna Newson e Laura Marling, com quem já realizou turnês pela Europa. Seu estilo dark marcado por melodias leves e um trabalho de voz impecável abrem um novo território musical a ser conquistado pela jovem britânica.

Marika, que já abriu shows de bandas como Alt j, acerta na dose de sobriedade melódica em seu primeiro álbum. Depois do lançamento de 3 EPs e sem deixar de lado as suas influências musicais, We Slept At Last é, ao mesmo tempo, sombrio e poético. O nome do álbum, que está presente na última estrofe da última música do disco, mostra o cuidado de Marika ao criar uma identidade para sua obra. As músicas do álbum foram escritas em pouco tempo, dessa forma, todas carregam características similares que ajudam, ainda mais, a manter a unissidade do álbum. Marika afirma que as letras das músicas tratam de solidão e aceitar o fato de estar sozinho. Os efeitos de guitarra intercalados com o som do violão com cordas de aço, acompanhados por uma bateria inconstante que cria um certo swing nas músicas de Marika e ainda uma combinação de poucas notas no sintetizador, criam pequenas atmosferas a serem exploradas a cada faixa. Produzido por Charlie Andrew, que trabalhou com Alt J em An Awesome Wave (2012), as 12 faixas de We Slept at Last conseguem mostrar a dor e aceitação de Marika.

O álbum começa com “Drown”, faixa que mistura o dedilhado do violão com um sintetizador poderoso, que conduz a faixa. O começo simples é transformado ao longo da música conforme os novos instrumentos vão ganhando volume. O clipe, que mostra Marika se afogando num tanque de água, traduz da melhor forma a ideia da letra: se afogar na mente de alguém.

“Before I Sleep” apresenta uma estrutura muito parecida com “Drown”. O começo com uma nota unissona do sintetizador e depois acompanhada pelo dedilhado do violão. Diferente da primeira faixa, esta é mais delicada e dá espaço para a voz de Marika, que consegue ter destaque mesmo com tantos outros sons.

A terceira faixa do álbum, “Ophelia”, começa com a voz e violão de Marika, e um piano que acompanha a mudança dos acordes. Personagem de Hamlet na obra de Willam Shakespeare, Ophelia se afogou num rio após ser rejeitada por seu grande amor. Marika, que não tem medo de explorar o lado escuro das desilusões amorosas, discorre sobre morte e dor.

Em “Open Wide”, Marika cria uma atmosfera sombria com dois riffs de guitarra que se completam e um refrão que deixa a música parada no ar. Nessa faixa, Marika é possível ouvir as influências de bandas como Nirvana e Warpaint. Em “Skin”, Marika é acompanhada pela voz de Sivu, outro artista da cena indie britânica. A música, que vai se completando ao longo de sua duração como um jogo de perguntas e respostas, é uma das mais tragicamente poéticas do álbum.

“Claude’s Girl” foi uma canção de ninar que Marika escreveu para si mesma com o objetivo de enfrentar as noites de insônia. Inspirada pela canção “The Girl With the Flaxen Hair” de Claude Debussy, a música conta com o trabalho de vozes de Marika em harmonia e um violão com uma levada de valsa.

A oitava faixa do álbum, “Animal Fear”, conta com uma grande sinfonia de diferentes sons: ao começar pela guitarra de Marika com um som de órgão e a sexta corda afinada em Dó. Os sons de tiros disparados ao longo da música e a bateria que acompanha a música com batidas que variam no downbeat e upbeat do compasso, traduzem o desespero e medo de Marika ao perceber que está se transformando em um lobisomem. Na letra da música, novamente outra citação a Claude Debussy: ‘And she calls my name / And I howl her tune / But the hunters slay / By the clair of the moon’. Dessa vez, Marika faz referência a música “Clair De Lune” (luz da lua).

“In Words” conta com instrumentos exóticos como uma dilruba e um sarangui. Sua levada tranquila desacelera ainda mais o ritmo do álbum, de maneira precisa. A letra fala, ironicamente, da dificuldade de Marika em colocar em palavras seus sentimentos e pensamentos.

“Monday Afternoon” foi lançada por Marika em 2012 pelo canal da Burberry (#BurberryPresents) com o nome de “Here I Lie”. Na época, a artista se juntou à marca para uma campanha da linha de eyewear. Mal sabia ela que 3 anos depois, “Here I Lie” viraria “Monday Afternoon”. Com o mesmo arranjo do violão a faixa ganhou mais complementos, como uma sessão de flautas que dão um toque medieval pra música. “Undone, Undress” talvez seja a faixa mais sombria de todo o álbum. Os sons graves de diferentes sintetizadores são acompanhados pela voz distante de Marika ao longo dos tensos minutos de música. A letra, mais obscura que qualquer outra, mistura um imaginário sensual com a imagem de alguém destruído, fiscamente e psicologicamente. Já “Next Year” retoma o ar medieval de “Monday Afternoon”, principalmente pela levada constante e rápida da percurssão combinada ao riff do sintetizador.

“Let Me In”, encerra o álbum de forma sutil. Com uma percurssão que preenche as lacunas do baixo, o destaque da faixa é o dedilhado constante que acontece durante toda a música. A letra funciona como um pedido de socorro por abrigo psicológico. A dor de perder o refúgio mental, a inquetude de pensar e repensar e não parar. Marika encerra os versos do álbum com a frase ‘We Slept at Last’.

Um disco para ser ouvido e sentido várias e várias vezes, We Slept at Last ajuda a aceitar a dor e questionamentos de um término ou de qualquer situação da vida.

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