Soundcloud, Um Paciente Terminal

Por Victor Augusto (Vinte Records)

O fim do Soundcloud

Houve quem quase chorou com o fim do Orkut. O Orkut simbolizava uma época mais inocente e mais simples da vida de milhares de pessoas, e foi a primeira rede social realmente popular no Brasil (mais do que em qualquer lugar do mundo, aliás). Quando o MSN acabou, não houve muita choradeira: o bate papo do Facebook tinha enterrado o Menssenger da Microsoft. Mas mesmo assim, os aficionados pelo MSN resmungaram um pouco, afinal, o Skype não é o MSN. O fim de uma rede social leva consigo milhares de recordações e memórias dos seus usuários e coloca um fim abrupto em uma comunidade formada através da internet. Quando o Orkut e o MSN acabaram, não foi só o fim da sua conta, mas o fim de um estilo de vida. E eu estou sentindo o fim da “minha comunidade”, o Soundcloud. Isso está me deixando realmente triste, porque, assim como não vai existir outro Orkut, nem outro MSN, não vai existir outro Soundcloud.

O Soundcloud surgiu em 2007, ano que o então popular MySpace começou a entrar em declínio. Eu mesmo utilizei muito o MySpace, mas havia uma coisa que me incomodava um pouco lá: era tudo muito profissional, tudo muito arrumado. O Soundcloud apareceu em minha vida entre 2011 e 2012. No começo, achava que era somente uma plataforma de streaming de música, como o finado Grooveshark (RIP). Mas o Soundcloud era diferente: você podia seguir as pessoas e as pessoas podiam te seguir. Você podia pesquisar uma música por gênero ou por uma hashtag. Você podia até subir (!!!) suas próprias produções. Era demais pra mim. Serviços mais comuns de streaming de música, como o Groovershark, Spotify ou Deezer são mais utilizados como uma grande biblioteca. O Soundcloud era um imenso garimpo. O lance era descobrir coisas novas.

Assim como as redes sociais já citadas acima, o Soundcloud tornou-se uma comunidade. Vários artistas, coletivos e selos começaram a sua carreira lá, impulsionados pela liberdade permitida pela própria plataforma. Edits e remixes permitiram que vários “bedroom producers”, como Ryhan Hesmorth, Cashemere Cat e muitos, muitos outros, tivessem uma carreira de verdade. Coletivos e selos, como o Soulection (quem tem um programa na recém criada Beats 1, da Apple), Pelican Fly (Lido, Nadus), LuckyMe (Baauer, Rustie, Machinedrum) Future Classic (Flume, Ta-Ku). WEDITIT(SALVA, RL Grime, Shlohmo) e muitos, muitos outros, criaram sua base de fãs e desenvolveram sua sonoridade através da plataforma.

Com uma avalanche de processos por direitos autorais, o fim do Soundcloud era até previsível. O acordo com o grupo Warner não foi suficiente para garantir o funcionamento da plataforma nos moldes antigos. Desde ano passado, surgem diversos relatos de ‘queda’ de contas, faixas e mixes, bem como rumores da criação de serviços de assinatura (como nas outras plataformas de streaming) e a adição de comercias e anúncios. Até hoje, nada disso se materializou. Com menos dinheiro e assolado por processos, o Soundcloud deve encerrar suas atividades em breve, ou mudar drasticamente (pra pior, é claro). Existem outros serviços similares de streaming (o audiomack) e plataformas como Livemixtapes (e suas subsidiárias, Club e Indy Mixtapes) ou o Datpiff, nas quais você pode subir seu trampo de maneira gratuita. Pros DJs, a mais utilizada atualmente é o Mixcloud. Mas nada, nada vai ser igual ao Soundcloud.

PS: O Soundcloud não vai acabar nem na próxima semana, nem nos próximos meses, mas está definhando de maneira acelerada. É um paciente terminal.

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