Planet Hemp – Usuário (1995)

Por Caique Padovan (ForKilla)

Ainda no curto período que esteve em sociedade com os Titãs num dos maiores selos independentes que já existiu no país, o Banguela Records, o produtor e jornalista Carlos Eduardo Miranda profetizou em uma prosa com um zine de 1994 que o futuro do rock nacional estaria na MPB. Miranda de fato não estava errado, mas também não queria dizer que o destino encontrava-se na música popular brasileira propriamente dita. Tendo em mãos as demos iniciais de bandas como Raimundos e Chico Science com sua Nação Zumbi, sabia que era aquele o horizonte a ser alcançando. Compreendeu que qualquer gênero musical que migrasse para nosso território, mesmo que de forma tardia, passaria por um processo de regionalização. Dependendo apenas da região, absorveria os ritmos já aculturados, até chegar ao ponto de também ser considerado parte de nossa cultura popular.

Mesmo sendo lindo aquilo produzido pelas bandas que se mostraram nos anos de 1990, a hibridização do rock com gêneros tipicamente brasileiros não é nenhuma novidade. Nada que os Mutantes, junto a Gilberto Gil, Caetano Veloso e todo o movimento tropicalista não tenham feito quando implantaram a guitarra elétrica à música brasileira, mesclando-a ao samba, baião e à bossa nova. Em um disco como Jardim Elétrico, os Mutantes adiantaram em vinte anos o que viria a ser feito – guardadas as devidas proporções – por grupos como o Planet Hemp. Sendo essa segunda banda responsável por mesclar além do samba, gênero já citado, o hardcore, a psicodelia, o rap e o funk norte-americano.

Ao lançarem seu primeiro disco no ano de 1995, Usuário, o Planet Hemp entrou para o rol das bandas que melhor representaram o cenário não pop da música brasileira nos anos 90 – as outras duas são os já citados Raimundos, com seu disco homônimo, e Chico Science & Nação Zumbi, com Da Lama ao Caos. Juntos até o momento que assinaram com grandes gravadoras, anarquizaram e elevaram o mercado alternativo, até então pouco explorado comercialmente. Talvez não sendo a principal dos três mas com a trajetória mais polêmica, o Planet Hemp foi o mais segmentado da geração, atingindo jovens que simpatizavam com o tema por eles levantado (a cannabis e sua legalização, claro).

Em Usuário o Planet Hemp fez um manifesto. O objetivo era simples: levar o tema a uma discussão social. Os tópicos para o debate encontram-se nas letras; alegando estarem cansados de subir aos morros e contribuir para o tráfico. Por este fato, puseram o dedo na cara do sistema conservador reivindicando a legalização da maconha e mostrando a violência policial a qual eram expostos. O grito vem da rua movido a marijuana. E os gritos são as vozes de Marcelo D2, Black Alien e BNegão, acompanhados pelo baixo de Formigão, a bateria do Bacalhau, a guitarra de Rafael Crespo e os scratchs do DJ Rodrigues.

As faixas “Porcos Fardados” e “Fazendo a Cabeça” destacam-se pela mensagem passada, de forma não subliminar, onde claramente expõem, respectivamente, por quem são oprimidos e os pontos pelos quais lutam. Já em “Skunk”, faixa instrumental, é notável a psicodelia grooveada dos cariocas, que por todo o disco é acompanhada pelo rap, pelo rock e por elementos musicais naturais do Brasil. E falando nesse enorme crossover é impossível não citar “Futuro do País”, um samba-hardcore que, mesmo por um curto espaço de tempo, faz lembrar antigas canções de Bezerra da Silva.

E hoje, 20 anos depois, ainda há quem critique o Planet Hemp e seu disco de estreia. Pessoas de cabeça pequena, que não enxergam além seu cúbico preconceito e não conseguem compreender o real poder da liberdade de expressão.

Legalize it!

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