Black Future – Eu Sou O Rio (1988)

O Black Future foi formado por Satanésio, Tantão – seu núcleo – Lui (que logo deixou a banda), Olmar e Edinho em algum momento dos anos 80 (1984?), no bairro da Lapa, no Rio de Janeiro. Lançaram apenas um álbum, mas nada mais era preciso; a história já estava escrita, e nunca poderá ser apagada.

Eu sou o Rio saiu em 1988 pela BMG/Plug. Considerado pela crítica especializada como um dos álbuns do ano, com reportagens entusiasmadas no jornal O Globo, na revista Bizz, videoclipe, incensos e mirras, o disco nasceu, cresceu e morreu no submundo sob os Arcos. Era demais para ouvidos acostumados ao rock de Brasília. .

Produzido por Thomas Pappon (Fellini) e com participações de Edgar Scandurra, Edu K (De Falla), Paulo Miklos e Alex Antunes (Akira S e As Garotas que Erraram), Eu sou o Rio é uma ode ao caos urbano e à demência das grandes cidades, longe, muito longe dos corpos sarados e do eterno verão carioca.

À época do lançamento do disco Satanésio disse em entrevista a O Globo que “No fundo, o nosso trabalho é uma trilha sonora para o Rio”. Sim, o Black Future fez a trilha sonora do Rio, do Rio real, não o de cartões postais; expôs as entranhas da cidade não tão maravilhosa, numa época em que a Lapa não aparecia na TV e não era vista com bons olhos pelas ‘pessoas de bem’.

Eu sou o Rio tem dois pilares básicos de sustentação sobre os quais foi construído: primeiro, musicalmente não segue um padrão. É extremamente experimental, explorando terrenos obscuros do pós punk (Bauhaus, PIL, Wire, The Fall, etc) e do industrial (Einstürzende Neubauten, Clock DVA), mas também abraçando o samba (obviamente em “Eu sou o Rio”), o latente hip hop, enfim, um disco sem amarras; segundo, as letras e a forma de cantar de Satanésio.

Em cada uma das faixas do álbum o vocalista e letrista do Black Future destila veneno em forma de palavras. Irônico, com um humor altamente ácido, Satanésio verbaliza (ele não canta, declama, quase como um poeta do spoken word) o ódio pelas instituições (estado, igreja, família), pela caretice vigente, pelo modus operandi da cidade; mas narra também – com toques de realismo fantástico – as experiências surreais das noites cariocas movidas à psicotrópicos.

Dois anos após o lançamento de Eu sou o Rio e seis após seu surgimento, o Black Future saia de cena e deixava um enorme buraco no rock brasileiro. Nunca, antes ou depois, uma banda conseguiu usar o absurdo como força motriz e criar um álbum tão fragmentado (musicalmente) e tão coeso (liricamente) quanto Eu sou o Rio.

Mais que um panorama do que era o submundo da cidade nos anos 80, ele é uma fotografia em preto e branco da realidade carioca não mostrada nas novelas de Manoel Carlos. O Futuro é Negro, e eles já sabiam disso 25 anos atrás.

Se você não conhece, conheça. Se conhece mas não tem, pegue. Se já tem, ouça de novo!

Essencial!

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15 comentários sobre “Black Future – Eu Sou O Rio (1988)

      • Acho, cara, que a maioria dos comentários sobre o BF volta-se sempre para uma determinada linha: pós-punk, artaud, quadrinhos e a questão do samba. E não estão errados. É isso mesmo. Geralmente, não se indica isso no trabalho, circulando com o estético ou o poético. Tipo: dizer e mostrar onde está. Vc passa por isso td, mas avança, principalmente, ao relacionar com a minha forma de cantar, os conteúdos da letra, e o que pra mim é o achado de seu texto: a síntese inusitada entre “fragmentação” e “coesão”. Para mim, é a síntese de uma antítese. Será possível? Acho q, segundo vc, o BF conseguiu, né…Por isso,na contracapa do disco, saudamos ou agradecemos ao “absurdo’…rss…Mt bom….

  1. Pingback: AD03 – Black Future / Eu Sou O Rio (1988) « 300 Discos Importantes da Música Brasileira

  2. Acho, cara, que a maioria dos comentários sobre o BF volta-se sempre para uma determinada linha: pós-punk, artaud, quadrinhos e a questão do samba. E não estão errados. É isso mesmo. Geralmente, não se indica isso no trabalho, circulando com o estético ou o poético. Tipo: dizer e mostrar onde está. Vc passa por isso td, mas avança, principalmente, ao relacionar com a minha forma de cantar, os conteúdos da letra, e o que pra mim é o achado de seu texto: a síntese inusitada entre “fragmentação” e “coesão”. Para mim, é a síntese de uma antítese. Será possível? Acho q, segundo vc, o BF conseguiu, né…Por isso,na contracapa do disco, saudamos ou agradecemos ao “absurdo’…rss…Mt bom….

  3. Me lembro quando assisti a uma apresentação do Satanésio e companhia há 500 anos atrás, lá no velho Circo, muito antes do palhaço do Conde fechá-lo. A bicharada tava lá, soltando uns sons, uns barulhinhos quaisquer, com o Edinho arranhando umas notas, quando algum sacana gritou da platéia: “Toca essa porra, Gordinho!”. Nisso, o Satanésio deu uma garalhada e o Edinho, muito puto, largou o instrumento e marchou pra fora do palco. Fim de show, fim do “momento duchamp” – hahahaha – bons tempos!

  4. Ótima lembrança e texto. Realmente um clássico. Não me conformo até hoje de ter emprestado esse vinil pra um camarada, que nunca mais me devolveu. Parabéns!

  5. Pingback: llOVNI – a vida eh breve (2014) | PEQUENOS CLÁSSICOS PERDIDOS

  6. Pingback: Cubüs – Caridade & Sadismo (2016) | PEQUENOS CLÁSSICOS PERDIDOS

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