Legião Urbana – Legião Urbana (1985)

 

“Você é tão moderno, se acha tão moderno, mas é igual a seus pais. É só questão de idade, passando dessa fase, tanto fez ou tanto faz…”

Em 1985 ainda não existia a chamada ‘religião urbana’, Renato Russo não era considerado o porta-voz de uma geração, não era chamado de gênio e todo o culto à Legião Urbana – que persiste com o passar dos anos – também não existia. Mas existia a revista Bizz, que de uma forma ou de outra começou toda essa história. E lá se vão 30 anos…

Renato Russo e Marcelo Bonfá formaram a Legião Urbana em Brasília por volta de 1982 – após o fim do Aborto Elétrico, onde Renato tocou entre 1978 e 1981 – ao lado de ‘Paulista’ (Paulo Guimarães) e ‘Paraná’ (Kadu Lambach). Pouco tempo depois os ‘estrangeiros’ saíram da banda e chegou Dado Villa-Lobos pra assumir a guitarra, dando ao grupo candango a cara que eu, você e todos nós conhecemos.

Os três jovens punks de final de semana tinham um círculo de amigos igualmente bem-nascidos que incluía, entre outros, Herbert Vianna e Bi Ribeiro, dos Paralamas do Sucesso, que – talvez, apenas talvez graças à influência do irmão de Herbert, o jornalista Hermano Vianna – já faziam parte do cast da gigante EMI-Odeon. Os Paralamas levaram à gravadora uma demo da tal Legião Urbana, os executivos gostaram do que ouviram e o trio assinou um contrato. Dias antes das gravações do primeiro e homônimo álbum entrava em cena o baixista Renato Rocha, o ‘Negrete’; time completo, hora do disco…

Lançado em 02 de janeiro de 1985, “Legião Urbana” destoava de toda a produção nacional da época, não pela qualidade de gravação e produção nem pela técnica dos músicos da banda. Acontece que há 30 anos o mercado jovem e roqueiro era dominado pela frivolidade colorida das bandas new wave, que na esteira da Blitz continuavam a cantar sobre cerveja e bata frita; na outra ponta dessa corda, fora das listas de mais vendidos, havia punks, experimentais, mods, hard rockers e outros outsiders que estavam cagando e andando para o que acontecia no Chacrinha. E os quatro rapazes de Brasília não se encaixavam em nenhum desses perfis: eram punks demais para os pops, limpos e inteligentes demais para o submundo. Esse foi um dos motivos para que o primeiro álbum da Legião Urbana não caisse no gosto popular – ou cult – logo de cara.

 

 

Além disso, 85 era o ano do Rock in Rio, aquele festival que até hoje arrasta multidões e continua vendendo lixo comercial. Mas enfim, o Brasil da ditadura nunca tinha visto um evento daqueles, e obviamente as bandas que se apresentaram por lá estavam ‘na crista da onda’, e atraiam todos os olhares, ouvidos e espaços publicitários. Também não houve um compacto precedendo “Legião Urbana”, uma exigência de Renato Russo ao assinar o contrato com a gravadora. Ele não queria hits. Mas os teve, mesmo assim.

Após a ressaca do RiR, a rebeldia intelectualizada e o romantismo melancólico e acinzentado das letras de Renato mais a estética pós-punk da banda passaram a chamar a atenção de uma parcela do público jovem carente da combinação atitude, sentimentos e cérebro. A produção de Mayrton Bahia e José Emílio Rondeau – diferente do que Lulu Santos fez aos Titãs – não limou a crueza das canções, o que faz com que até hoje o disco seja considerado inferior em termos de gravação. Mas à época isso aparentemente não importava, já que “Será”, “Ainda é cedo” e “Geração coca-cola”, após descobertas, se tornaram hinos e ajudaram a criar o mito Legião Urbana e toda a chatice que daí resultou. Aliás, como dito no primeiro parágrafo, a revista Bizz tem sua parcela de culpa no surgimento da ‘religião urbana’ e do messias Renato Russo: José Emílio Rondeau, um dos já citados produtores de “Legião Urbana” era também um dos jornalistas responsáveis pela então influente publicação, que em 1985 elegeu o álbum como melhor do ano e Renato como melhor cantor. Jabá? Não, claro que não…

Independente disso há no disco momentos ímpares, como “Soldados” e sua letra ainda timidamente homoafetiva, o nonsense de “Perdidos no espaço”, a anarquia de “O reggae”, o lirismo de “Por enquanto”, “Ainda é cedo” – o canal por onde expressaram claramente a influência do Joy Division em sua música – e “Teorema”, que narra em três minutos muita da história recente da minha vida e que em breve ganhará um texto especial por aqui.

E mesmo não tendo o peso histórico, musical ou – vá lá – a qualidade de “Dois”, lançado em 1986, “Legião Urbana” plantou a semente que germinaria, cresceria e se tornaria nos anos seguintes a entidade chamada Legião Urbana. Goste você ou não.

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