Hüsker Dü – Warehouse: Songs And Stories (1987)

Era uma tarde qualquer em algum momento do começo dos anos 90, andando sem pressa pela Galeria, enchendo o saco dos lojistas à procura de discos, posteres, fitas cassetes e qualquer outra coisa que meu pouco dinheiro pudesse pagar.

Naquela época era comum as lojas terem prateleiras e mais prateleiras de discos usados – muito mais baratos que os novos, claro – onde era possível perder algumas boas horas garimpando vinis por um preço camarada. O grosso era metal tosco, mas com tempo e paciência era possível encontrar grandes álbuns ali e principalmente descobrir música nova. E ao contrário do dinheiro, eu tinha tempo e paciência sobrando.

Nem me lembro quantas bolachas comprei nessa brincadeira, mas daquela tarde especificamente me recordo bem: tava com quase nada de grana no bolso, mas não queria voltar pra casa de mãos abanando. O inferno é que não achava nada bom e barato, e quando já tava quase desistindo entrei numa lojinha que tinha uma porção de discos empilhados no chão e uma placa com um preço muito sugestivo (isso foi há mais de 20 anos, não me peça o valor exato, mas era algo em torno do que hoje seriam uns 2 reais).

Me joguei sobre a pilha como um esfomeado se joga sobre um prato de comida; minhas mãos mais pareciam máquinas trabalhando em perfeita harmonia com aos meus olhos: passava de um vinil para outro numa velocidade sobrenatural, mas só via Poison, Iron Maiden e afins, de vez em quando um U2 ou Ira!, e porra, eu queria ser surpreendido por um Pixies ou um Bowie, no mínimo um Echo and The Byunnymen. E nada.

Até que me deparei com uma capa de imagens saturadas, meio psicodélica, onde se lia Hüsker Dü e logo abaixo Warehouse: Songs and stories, tudo em caixa alta e extremamente colorido. Na contracapa a mesma saturação e bem no meio três tiozinhos num gramado, dois sentados e um agachado; um com cara de nerd, outro meio rechonchudo e um bigodudo que parecia cobrador de ônibus. Cacete, eu tinha 15 anos, e esses caras definitivamente não representavam pra mim a imagem do roqueiro, e além de tudo era um álbum duplo; pensei em progressivo, soft rock e o caralho, mas o disco tinha encarte com as letras, as faixas eram curtas, daí como sempre fazia pedi pro cara da loja por ao menos uma das 20 músicas pra tocar. Ele me olhou com cara de quem sabia do que se tratava, um sorriso meio safado no rosto, e pôs a segunda do lado b pra rolar…quem conhece Warehouse sabe que se trata de “Could you be the one”, daí eu devo ter feito cara de ‘eita porra!’, o tal rapaz deu mais um sorriso sacana e pronto, eu levava o biscoito pra casa feliz da vida.

Anos depois me desfiz de grande parte da minha coleção de vinis para nutrir alguns vícios menos saudáveis que o da música, e sabe-se lá porque as canções e histórias de Warehouse permaneceram comigo. Talvez tenha sido uma ação do meu subconsciente para que eu nunca me esqueça daquela tarde qualquer em algum momento do começo dos anos 90, andando sem pressa pela Galeria…

Essencial!

PS: Sim, eu sei que Warehouse é o último disco do Hüsker Dü, que é ‘super produzido’, sei das brigas entre Mould e Hart, do vício deste último em drogas pesadas e de tudo que cercou o álbum das gravações até seu lançamento, no início de 87. Mas não tem graça repetir uma história que já foi contada tantas vezes, né…

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