Primal Scream – More Light (2013)

Quando o vídeo da música “2013” foi liberado no YouTube, com seus longos 9 minutos, fui tomado por duas sensações distintas: a fé e o ceticismo.

Desde Evil heat, de 2002, nada que o Primal Scream faz me agrada. São 11 anos e dois álbuns que considero desprezíveis, Riot city blues (2006) e – pior – Beaultiful future (2008), então o que esperaria eu, um sujeito que cresceu ouvindo Screamadelica, Vanishing point e XTRMNTR, após esses fracassos? Nada.

Mas aí, como eu disse, chegou “2013”, psicodélica, barulhenta – com guitarra de Kevin Shields e sax de David Holmes -, me lembrando “Shoot speed kill light”, uma das minhas preferidas do já citado XTRMNTR, e a fé renasceu. Mas “2013” é só a primeira faixa de More light, e se o resto fosse mais uma bad trip de Bobby Gillespie e cia.? De repente me vi completamente cético.

Daí, passado algum tempo, veio à tona “It’s alright, it’s ok”, e mais uma vez fui tomado por aquela fé que só os crentes mais fervorosos experimentam. Ouvi-la foi um mergulho em outra época, em outras sensações…difícil explicar com palavras. Mas o ou melhor ainda estava por vir.

Até então eu vivenciava uma experiência de fé, e todos sabem que a fé é cega, surda e burra. Mas à partir de “River of pain”, segunda faixa de More light, a crença foi substituída por uma experiência empírica, de imersão em uma música que é, em suma, um blues. Mergulhado numa solução lisérgica, percussivo, sensorial, mas ainda um blues, que remete tanto à Screamadelica quanto a Vanishing point, ou que talvez os funda em uma coisa só; e aí chegamos, a meu ver, no ponto X deste novo Primal Scream: derreteram tudo que fizeram (de melhor) em sua já longa carreira neste novo álbum, e com a substância entorpecente resultante moldaram suas 13 canções – 21 na versão de luxo.

Citando as palavras de um amigo, para ouvir More light na íntegra “é preciso dedicação, mas compensa. É muito variado, parecem três discos num só. Tem de tudo, né? O disco nem chega a ter uma unidade, mas a diversidade não deixa cair na monotonia”.

O álbum leva o ouvinte a uma longa viagem, indo do shoegaze (mesmo!) de “Hit void” à alucinada e ruidosa “Sideman“; da balada sombria “Walking with the beast” às inclassificáveis “Goodbye Johnny” – com um solo de sax à David Bowie – e “Tenement kid“.

Citando mais alguns exemplos, aqui há emulações de XTRMNTR (“Culturecide”), de Evil heat (“Elimination blues“, contando novamente com Robert Plant), de Stones, Stooges, dub, eletrônica, free jazz, punk, ecstasy, LSD, anfetaminas, cocaína, heroína…sem as drogas, claro, já que Bobby Gillespie declarou em uma entrevista recente estar limpo. E a caretice lhe fez muito bem.

Com o juízo em dia, o líder do Primal Scream chamou velhos conhecidos à participar de More light: David Holmes (produtor, assinou também XTRMNTR), Andrew Weatherall (dos tempos de Screamadelica), Kevin Shields (que inclusive veio ao Brasil com a banda) e, se perdeu Mani para a reunião dos Roses, trouxe para seu lugar Debbie Googe (do My Bloody Valentine).

Resumindo a história, que poderia se alongar e tornar-se enfadonha – o que definitivamente não combina com o disco -, se você é fã do Primal Scream mas não via um belo futuro para a banda durante suas andanças com Lovefoxxes e cia., se atire de cabeça e sem medo em More light (e se tiver uma grana extra ou for bom de busca na rede, consiga a versão de luxo). Será um longo e prazeroso mergulho.

Altamente recomendado!

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8 comentários sobre “Primal Scream – More Light (2013)

  1. Cara, pra mim Screamadelica foi o melhor album dos caras e te digo que foi o show que mais vibrei na minha vida cara. que viagem foi aquilo. Acredito que este disco nao supere ele ou melhor nao da para comparar os dois. Irei ouvir, valeu!

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