Los Hermanos – 4 (2005)

 

Para os realmente movidos à música, ela – a música, claro – tem muito mais a ver com sentimentos que com a razão. Não segue regras de mercado, de moda, de tempo, de espaço, regra nenhuma. Ela simplesmente te pega.

Sou assim desde sempre, não me importo com padrões de comportamento ou de uma certa ‘estética social’; se você é das sombras não pode ouvir Bob Marley porque é chapado, se é maconheiro não pode ouvir Sisters of Mercy porque não tem boas vibrações, se é hétero não pode ouvir Madonna porque é coisa de viado, se é gay não pode ouvir Pantera porque é uó, e assim por diante…que se foda tudo isso, não?

A cada conversa real ou virtual que tenho com amigos e conhecidos em que entra na roda o nome Los Hermanos a ideia é invariavelmente a mesma: ‘puta bagulho chato, pára!’. Normalmente mando todos à merda, porque sei de onde vieram e entendo não gostarem dos cariocas, mas juro que não entendo esses hipsters das redes sociais, pseudo-jornalistas ou o que valha seguirem a onda do Barcinski e gongarem a banda para em seguida louvarem Cícero, Nevilton, Apanhador Só e outros novos nomes desse caldeirão chamado por aí de indie brasileiro, que a meu ver são crias diretas dos Hermanos. Enfim, papo pra mais de metro e muitas cervejas.

Minha relação com os barbudos não começou bem, nada bem. Final dos anos 90, começo de 2000, e os caras me vem com seu disco de estreia, desgraçadamente ruim, uma mistura de ska, Weezer, marchas de carnaval e, claro, Anna Julia. Insuportável, e à época pensei que eles seriam como tantas outras bandas daquele tempo: surgiriam e desapareceriam antes que alguém desse falta, deixando apenas aquela maldita música como herança. mas não foi bem assim.

Dois anos depois lançaram “Bloco do Eu Sozinho”, perderam inúmeros fãs, o apoio da Abril Music (que curiosamente faliu um ano depois), ganharam status de cult e uma porção de novos fãs, inclusive eu. A melancolia real, adulta – não aquela adolescente de dois anos antes – entrava em cena e o clima de festa dava lugar a uma longa despedida; era o fim do Los Hermanos de “Primavera” e a chegada do Los Hermanos de “Adeus Você”. É aquela questão do primeiro parágrafo, a música te pega pelos sentimentos…

Dali até “Ventura”, o terceiro disco lançado em 2003, pouco ou nada mudou em minha vida. Na música dos Hermanos também, mesmo que com “Ventura” eles tenham, de certa forma, retomado o sucesso de anos atrás (ainda que numa escala bem menor). MTV, Maria Rita, Faustão, treta com o finado Cheirão, ops, Chorão, e 2004 ia de vento em popa para os criadores do indie-sambinha, mas pra este que vos escreve…bem, digamos que não foi um ano fácil.

Em meio a tormenta que ali começou e se seguiu, os Hermanos despejaram sobre minha pobre e perdida cabeça seu trabalho mais triste, calcado numa sensação de perda e saudade e, estranho para um sujeito como eu, até então bem avesso à MPB, mais próximo a essa coisa, a tal MPB.

 

 

“4” saiu em 2005, e em 2005 poucas coisas me faziam tanto sentido quanto as letras cabeçudas de Camelo e Amarante. Ok, muito provavelmente eu as interpretava de acordo com o que sentia, e o que eu sentia era basicamente tristeza e vazio, vazio este preenchido invariavelmente por doses cavalares de drogas legais e ilegais, pelas 12 faixas do álbum e volta e meia por um abraço irregular entre um comprimido, uma carreira e uma canção. Eu só queria ver o horizonte distante.

Produzido pelo mesmo Kassin que assinou os dois álbuns anteriores, “4” não agradou a crítica – que o considerou ireegular – e nem o público, que esperava uma continuação de “Ventura”. Mas seguindo uma tradição iniciada em 2001, a banda seguiu uma nova direção no disco – que segundo o tecladista Bruno Medina disse era então o trabalho mais amplo, abrangente e melhor amarrado dos Hermanos. Pouco me importava tudo isso à época, e na verdade pouco me importa agora, passados 10 anos.

Porque até hoje ao apertar o play e ouvir os primeiros acordes de “Dois Barcos” um mar de melancolia invade minha alma, numa onda de sensações incontroláveis; são incontáveis recordações tristes, mas a tristeza é parte dos seres humanos que se recusam à vigente ditadura da (falsa) felicidade; e de qualquer maneira o tempo me mudou me moldou no que sou hoje, um sujeito que encontrou o amor e a alegria.

E claro, ainda fã de Los Hermanos e de seu último disco, seu canto do cisne e também meu fim. E recomeço.

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