Gil Scott-Heron – I’m New Here (2010)

 

Não se pode dizer que Gil Scott-Heron seja um homem de poucas palavras. E tampouco de meias palavras.
O hoje senhor com 61 anos de idade tem em seu invejável e extenso currículo de serviços prestados à música mais de dez álbuns, além de cinco livros publicados (um deles, Abutre, saiu aqui no Brasil pela editora Conrad). E tanto em seus discos quanto em seus livros o homem solta o verbo.

Associado ao nascimento do rap e da blaxploitation, Heron – assim como Curtis Mayfield – é um dos grandes cronistas da vida do negro urbano estadunidense, utilizando a arte da escrita como forma de expressão e transformação dos guetos.
Em seu álbum Small Talk At 125th And Lenox (1970) ele anunciava ao mundo – acompanhado apenas por um bongô e uma conga – que ‘a revolução não será televisionada’, pregando a mudança vinda de baixo para cima.

Quatro década depois é discutível o que mudou na vida do negro pobre (seja de onde for), mas é indiscutível o impacto causado pela música do músico-poeta, que entrou em 2010 quebrando um silêncio de 15 anos com seu novo disco, I’m New Here.

Em seus dois primeiros minutos, I’m New Here dá a impressão de que o spoken world – que é marca de Gil Scott-Heron a tantos anos – continuará como sua impressão digital no século XXI. “On Coming From A Broken Home (Part 1)” abre o álbum em tom confessional, tendo como base apenas um sample sem batidas de “Flashing Lights”, de Kanye West. Mas à partir da segunda faixa, as mensagens adquirem novas formas.

 

 

A cover de “Me And The Devil” do bluesman Robert Johnson chega com as batidas do hip hop pós-moderno (DJ Shadow vem à mente) como plataforma para a voz enfumaçada de Heron, mostrando que o dedo de Richard Rusell (dono da XL Recordings) na produção pode trazer surpresas. Se “I’m New Here” (cover da banda Smog) é estranhamente folk e “I’ll Take Care Of You” (outra cover, de Bobby Bland) é um blues de piano dolorido e carregado de sentimento, a eletrônica é o principal combustível para as demais canções de I’m New Here.

O onipresente dubstep, seu irmão quase esquecido trip-hop e o pai bastardo de ambos, o industrial, marcam forte presença na meia hora do disco. Tudo é muito dark e sombrio, das interpretações aos arranjos; um casamento perfeito entre o que é dito (já que cantar não se encaixa bem aqui) e o que é tocado/produzido.

Os timbres de “Your Soul And Mine”, “Where Did The Night Go”, ”Running” e “The Crutch” são assustadores, cavernosos, e remetem ao passado que vem sendo relido e reembalado sob diversos rótulos (witch house?), com toda a verborragia poética de GS-H por cima. “New York Is Killing Me” traz o coro gospel do Harlem, palmas, sintetizadores e beats gravíssimos para a panela, incrementando o cozido no qual o tempero mais forte é definitivamente a voz poderosa de Heron.

E hoje, em pleno 2010, o poeta-marginal da revolução falada se reinventa. I’m New Here pode ser considerado uma grande ousadia em sua longa carreira – interrompida algumas vezes por problemas com drogas e a lei; talvez para os fãs radicais uma ousadia grande demais, mas que com certeza mostrará aos mais jovens a força das palavras de Gil Scott-Heron, agora mais atual – e sempre no underground – que nunca.

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