Dossiê P.C.P – MPB 2.0

Uma revolução vem acontecendo na música brasileira, e sampleando as palavras de Raul Seixas, “não dá no rádio nem está nas bancas de jornais…”.

Desde que a chamada mpb viveu seus dias de glória, lá nos anos 60/70, nunca se viu e ouviu tantos bons e diferentes artistas surgidos numa mesma safra. Mas mpb talvez não seja exatamente o caso aqui…
Afinal, o termo significa música popular brasileira e costuma ser usado por dois grupo distintos em duas situações diferentes para rotular a mesma música: ou é engajada, panfletária e politizada, a ‘música cabeça’ tocada e retocada em bares da Vila Madalena; ou é romântica, brega e dançante, a ‘música alienada’ que toca nas rádios e vende milhões de discos.
E essa nova música brasileira não se encaixa em nenhuma dessas situações.

A MPB 2.0

O contexto histórico no qual surge a mpb 2.0 é totalmente diferente do da década de 60, quando a ditadura militar colocava – literalmente – amarras em seus opositores, muitos deles músicos; e também da década seguinte, quando Roberto Carlos e cia. enterravam a música de protesto sob toneladas de sucessos românticos e a indústria fonográfica via nascer e crescer rapidamente seu império.

Nos anos 2000 a ditadura havia terminado, o romantismo dos anos 70 continuava lotando shows – agora com os herdeiros da tradição, leia-se pagodeiros e neo sertanejos -, e a indústria da música assistia o começo de seu fim com o advento da internet e de uma coisa chamada Napster.

Então agora, sem um inimigo a combater e sem as barreiras impostas pelas gravadoras, o que esperar dessa geração?

“Alegria vai lá”, a música do vídeo acima, exemplifica como poucas essa ruptura da mpb 2.0 com os padrões da música brasileira de então. Híbrida, desconexa, anos-luz distante da estética banquinho-violão, foi lançada em 2003 no álbum Sincerely hot, do trio + 2 (composto por Domenico Lancelotti, Alexandre Kassin e Moreno Veloso), que rompe também com a ideia do artista egocêntrico por trabalhar de forma colaborativa e sem um frontman fixo.

Aliás, a colaboração é palavra chave desse ‘movimento’. Além dos combos 3 Na Massa e Orquestra Imperial, que têm entre seus membros músicos de outras bandas, atrizes, etc, o que se vê em praticamente todos os discos dessa tal mpb 2.0 são convidados tocando e produzindo mutuamente.

Pense em Romulo Fróes, Tulipa Ruiz, Tiê, Marcelo Jeneci, Céu, Bárbara Eugênia, Andreia Dias, Nina Becker e Thiago Pethit, por exemplo. Jogue no google todos esses nomes e você encontrará ligações e cruzamentos; participações, referências comuns, enfim, todos estão de alguma maneira conectados.

Essa rede que vem se formando ao longo dos últimos anos passa necessariamente pela morte lenta das grandes gravadoras. Sem o ‘aparato’ das majors, os músicos se viram responsáveis pelo processo de composição, gravação, produção, edição, etc. Sabe aquele ditado ‘Quando a água bate na bunda a gente aprende a nadar’? Pois é, e se houver alguém para aprender junto, melhor ainda.

A qualidade das produções da mpb 2.0 é inegável – seja onde há um crossover, como acontece nos álbuns de Domenico, Céu ou Anelis Assumpção; ou nos mais ‘tradicionais’, como os de Nina Becker e Tiê – e aí as novas tecnologias (e a facilidade de acesso às mesmas) se mostram como grandes ferramentas para que essa nova geração atinja esse alto nível técnico.

E a internet, vista como o demônio pelos seus engravatados ex-patrões, serve como plataforma para lançamentos e canal de comunicação direta com o público. Seja em vídeos no Youtube/Vimeo, seja em streaming no Soundcloud/Bandcamp, seja disponibilizando seus discos (como Um labirinto em cada pé, de Romulo Fróes); seja mantendo contatos via Facebook e Twitter, essa turma descobriu rapidamente o poder da rede mundial de computadores. Em entrevistas concedidas ao P.C.P, gente como Bárbara Eugênia, Domenico Lancelotti e a banda Mombojó defenderam a cultura do download, provando que o passado morreu e a nova era chegou para quem estiver preparado.

E antes das pedradas, o caso aqui não é desmerecer movimentos como a tropicália ou a vanguarda paulista, que trouxeram – cada um à sua época e de sua maneira – inovações estéticas à música brasileira. Mas é preciso acordar para o novo, perceber que o tempo passou e que toda essa geração de jovens artistas está trazendo elasticidade aos padrões da mpb, criando uma música nova, rica e aberta a novas experimentações e possibilidades. Como aliás é de praxe no tempo presente. Ainda bem!

Viva a nova música brasileira! Viva a MPB 2.0!

5 comentários sobre “Dossiê P.C.P – MPB 2.0

  1. Bravo! Tomara que esse post acenda uma discussão daquelas, sabe? Pra nego parar de ser quadradinho com música. Nada é bom demais que não possa ser reinventado, copiado e compartilhado!

  2. Nós do Caipirinha Appreciation Society http://CAS.podomatic.com somos radicalmente contra essa coisa de ‘confrontação’ entre o antigo e o novo na música brasileira.

    MPB 2.0? Isso é tão… velha mídia.

    Quer dizer então que entre 60/70 (MPB 1.0) e agora não aconteceu nada que prestasse na música brasileira?

    Só se você estiver olhando pela ótica da indústria dos medalhões. Música boa nunca deixou de ser feita, o que as vezes acontece é os ‘formadores de opinião’ estarem olhando para o lado errado.

    Pobre Chico Science, pobre Eddie, pobre Nação Zumbi, pobre Arrigo, pobre Itamar, pobre Picassos.

    Pobres de nós jornalistas que não conseguimos nos livrar da tentação de inventar siglas, nomes e ‘movimentos’ que coloquem tudo em escaninhos, prateleirinha e compartimentos, querendo entrar para e história como quem ‘definiu’ uma era.

    Por que não deixar essa sede de falsas ‘rupturas’ e ‘revoluções’ e não passamos a pensar mais em termos de criação, evolução, mutação, contexto?

    Para novas mídias, um novo jornalismo.

  3. Caro(s) amigo(s),
    A ruptura se faz necessária, já que viver de passado parece ser o único caminho dos fãs de mpb. O confronto foi só uma cutucada, pra ver se acorda as pessoas pro novo.

    Eu não era jornalista na década de 80, se fosse teria escrito a mesma coisa sobre a vanguarda paulista, que eu adoro (e citei no texto).

    Nação Zumbi e toda a turma de Recife, que eu vi vááárias vezes ao vivo são foda, mas passam longe do concveito de mpb. Pergunte a umfã xiita do Chico Buarque o que ele acha do grande Chico Science…

    Quanto a esse papo de querer inventa algo, sai dessa. Não quero entrar para a história, até porque nunca gostei de música brasileira. Até agora.
    O termo mpb 2.0 é tão sério quanto quelauqer outro rótulo. Não serve pra nada, a não ser como tag.

    Para novas mídias, os mesmos chatos de plantão.

    Abraços

  4. Agora sim, eu achei onde comentar… hehehehehe – eu sou meio limitado com o WP mesmo. Mas vamos lá meter o pau no gato, como fez o Suingue acima, quer dizer, prometo fazer melhor e sem me esforçar muito.

    Brigdes, eu não gosto do termo MPB, mas sei que este rótulo, no sentido bom da palavra, pegou, a ponto de identificar um estilo musical brasileiro de música, não só o do banquinho e violão, mas, as coisas novas que vem chegando desde a pós-bossa nova. A Bárbara tem muito rock’n roll, a Nação também, os Mutantes também tinham e eu considero pouco distante uma coisa da outra, em sonoridade e conceito. João Gilberto tinha muito de jazz, Caetano também, Lucas Santtana é inovador e tem lá o seus elementos, para Nina é o que não falta, percebe? Mas, para nós, todos estão enquadrados na MPB, que, se o termo fosse levado ao pé da letra, estaríamos ferrados, em depressão musical pelo resto da vida, pois, o que é realmente popular?

    Sobre a difusão das novidades, tem que ter! Eu defendo e muito e creio até que as cenas paulistana e recifense são as mais produtivas do momento, descentralizando um pouco a cena carioca. Venho gostando e muito do que tem sido feito em PE, prefiro, esteticamente mais original e mais crítica (eu acho) e por gostar um pouco menos da nossa cena meu, não critico negativamente e penso que são extremamente necessários, pois quebram um pouco desta nossa rotina urbana e desgastada em que vivemos, dando assim, mais arte à nossa vida e identidade à nossa cultura.

    Vila Madalena. Muito dessa gente tocou lá antes de fazer algum barulho na rede Sesc hein, importante admitir isso. Por que eu me refiro à rede Sesc? Porque é na rede Sesc ou a partir dela que estes artistas são reconhecidos e não adianta negar, nós somos a maior empresa de difusão cultural do Brasil e talvez a maior rede de casas de show também do Brasil e o fato desse pessoal novo tocar em nossa segunda casa (ou na casa que sustenta a nossa casa), me faz pensar que os novos ícones merecem mais atenção, em qualquer que seja a Vila, Madalena, Mariana, ou Pompéia.

    Fechando: Internet é deus para essa gente toda e um anjo entregador de uma pizza deliciosa para nós que gostamos de música. Que venham mais, que apareçam mais e que sejam valorizados, igualmente com a velha guarda, porque todos tem o seu valor inestimável.

  5. Bom, vamos lá de novo…
    MPB 2.0 é só uma tag para identificar artistas surgidos após o advento da internet, que a usam para divulgar seus trabalhos e (eu acredito) buscar novas inspirações. MPB ou não, tanto faz. Eles são brasileiros, mas tocam música univesal.Pode ser paulista, recifense, carioca ou baiana, e, como já vem rolando, misturada (o que é bem melhor).
    Quanto a tocar na vila madá, na vila ré ou na vila cruzeiro, tanto faz. O que me incomoda é ver pseudo intelectuais e universitários de pernas cruzadas ouvindo músicas sobre a ditadura como se isso ainda fizesse algum sentido. O novo tá aí, né?
    Quanto ao sesc, bem, me recuso a responder por razões óbvias.
    É isso 🙂

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