1991: O Ano Do Grunge

Seattle

Em 1991 eu tinha 15 anos. Já era doido por música, e vinha – graças aos amigos mais velhos – descobrindo coisas novas e tentando assimilar tudo que até então havia absorvido: acid house, punk rock e pós punk, guitar rock (ainda não existia o termo indie), madchester, EBM/industrial, tudo engolido com aquela pressa adolescente e claro, mal digerido.

Com exceção ao acid house, que – mesmo não entendendo o contexto – vi nascer e crescer, todas essas cenas musicais eram de anos atrás. Ainda não havia experimentado a sensação estar no olho do furacão, de me ver fazendo parte da história e respirar o novo, a mudança. Aí veio “Smells like teen spirit”, e nada seria como antes.

Impulsionada pela MTV, a revolução do grunge seria televisionada. Do dia para a noite, saíram de cena as bandas hair metal-farofa-poser e assumiram seu lugar um bando de roqueiros sujinhos, de calças jeans rasgadas, camisetas de outras bandas, all star puído (ou coturno) e…camisas xadrez. E a chuvosa Seattle era o centro do mundo.

Curiosamente o estopim dessa bomba que explodiu em 91 é um álbum de uma banda que não era propriamente de Seattle, mas sim de Aberdeen, cidade a 160 quilômetros da capital grunge. Falo, é óbvio, do Nirvana e seu segundo disco, Nevermind.

Apesar de não ser o primeiro ‘álbum grunge’ (muito antes do Nirvana havia Soundgarden, Green River, depois o Mudhoney, etc), foi Nevermind que trouxe o rock alternativo americano para a berlinda midiática, colocando o underground sob luz dos holofotes e tornando o tal grunge a palavra de ordem mundo afora. Foi também o começo do fim para Kurt Cobain, que não segurou a onda do sucesso e se mataria 3 anos depois.

Além de Nevermind, outro disco da mesma safra venderia milhões de cópias e faria a molecada da época vestir camisa xadrez mesmo no calor do Brasil.

Ten é o debut do Pearl Jam, banda que assim como praticamente todas de Seattle nasceu do útero de outras bandas (no caso o Mother Love Bone). Menos punk que Nevermind e mais voltado ao ‘rock clássico’, Ten é também um disco mais adulto, graças às letras do perturbado Eddie Vedder.

Se dentro da panela grunge o Nirvana representava o espírito punk, duas bandas da ‘cena’ foram responsáveis por levar o metal além de seus guetos e abrir à riffs a cabeça da juventude noventista: Soundgarden e Alice In Chains.

A primeira surgiu ainda na metade dos anos 80, mas foi também em 91, pegando carona no sucesso de seus conterrâneos, que saiu dos porões de Seattle para lotar estádios. Badmotorfinger, segundo álbum do Soundgarden, traz as influências de Black Sabbath e Led Zeppelin (entre outros) para os anos 90 e põe definitivamente o heavy metal na rota dos alternativos.

Dos fab four do chamado grunge, o Alice In Chains é minha banda favorita. Talvez por tê-los visto ao vivo, talvez por serem mais melancólicos, talvez, talvez…enfim, surgiram em 1987 e não lançaram um disco em 91, mas um ano antes debutaram com Facelift e em 92 deram ao mundo o presente chamado Dirt. O álbum é triste, denso e pesado, muito pesado, e expõe o talento de Jerry Cantrell e as muitas angústias do viciado (e morto em 2002) Layne Staley. “Would”, última faixa, tem a melhor linha de baixo de sempre.

Se essas quatro bandas acima levaram o grunge à MTV, às rádios, às trilhas sonoras de filmes, desenhos animados, casas de família etc, não há como deixar de fora deste pequeno especial dois outros grupos primordiais para a ‘cena de Seattle’.

O Mudhoney não inventou o grunge, mas é sua personificação. Bêbados, punks, desafinados, sujos e muito roqueiros, a banda do vocalista Mark Arm já veio ao Brasil algumas vezes, e seus shows são sempre memoráveis (a não ser que se tenha amnésia alcoólica). Every good boy deserves fudge saiu em 91 pela Sub Pop (gravadora chave para o acontecimento do grunge – vale uma pesquisa), e traz uma das melhores músicas do Mudhoney, a insana “Good enough”.

E fechando a conta, chega Mark Lanegan com seu vozeirão, suas garrafas de uísque e seus Screaming Trees.

A banda tem uma longa história de serviços prestados ao rock, e caiu de para quedas nessa história do grunge. Melhor para eles, que conquistaram novos fãs, não com Uncle Unesthesia, seu disco de 91, mas sim com Sweet Obilivion, de 92. De qualquer forma, Uncle Unesthesia foi um passo importante para os Screaming Trees, por marcar sua saída da SST e um direcionamento mais pop em sua sonoridade, que culminaria em faixas como “Nearly lost you” e “Dollar bill”.

Claro, tantas outras bandas da era grunge ficaram de fora deste especial. Peço desculpas a quem esperava mais, mas este foi apenas um pequeno retrato de uma época em que alguns grupos e seus discos mudaram a vida de muita gente.

Inclusive a minha!

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8 comentários sobre “1991: O Ano Do Grunge

  1. Pingback: Screaming Trees – Last Words: The Final Recordings (2011) « Pequenos Clássicos Perdidos

  2. Pingback: Podcast P.C.P – Grunge Vol. 1 « Pequenos Clássicos Perdidos

  3. Pingback: Alice In Chains – Dirt (1992) « PEQUENOS CLÁSSICOS PERDIDOS

  4. Belo artigo Fabio.

    Só faltou o Pixies, como uma autêntica vertente que já soava verdadeiramente grunge, antes da década de 90. Ma vc representou com o Alice e Mudhoney, por exemplo.

    Sempre trazendo coisa boa, importante e com conteúdo racional e cúmplice da verdade. Parabéns!!!!

  5. Melhor década! Pena que eu ainda era uma batata em 91.

    Sobre os shows do Mudhoney serem memoráveis, a menos que se tenha uma amnésia acoólica, foi perfeito!
    Vi dois shows da banda por aqui e sobrevivi! Hehehe!

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  7. Pingback: Documentário – Pearl Jam Twenty (2011) | PEQUENOS CLÁSSICOS PERDIDOS

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