Juçara Marçal & Cadu Tenório – Anganga (2015)

Juçara Marçal é sem dúvidas uma das grandes vozes dos últimos (muitos) anos. Encantadora, forte e ao mesmo tempo suave, inebriante como um trago de alambique, é única em meio ao vasto universo das cantoras brasileiras.

A carioca radicada em São Paulo poderia tranquilamente gravar discos simplistas e medianos produzidos por sujeitos bem relacionados com a indústria do entretenimento, vender milhares de cópias e se tornar um dos grandes nomes da MPB bem comportada, acomodada numa sala de estar cheia de luxo e vazia de sensações reais. Mas não.

Cadu Tenório é um jovem de 28 anos, assim como Juçara nascido no Rio de Janeiro, que há alguns anos vem explorando os terrenos mais estranhos – e para muitos, hostis – da música eletrônica.

Ele poderia tranquilamente gravar discos simplistas e medianos de EDM ou afins, tocar em festivais gigantescos e se tornar um dos grandes nomes da dance music bem comportada e encharcada de ecstasy, acomodado numa sala de estar cheia de luxo e vazia de sensações reais. Mas não.

Ambos seguem pelos caminhos mais intrínsecos e desafiadores, atuando em diversas frentes com vários projetos, sempre à margem do comercial, do facilmente digerível, do lugar comum. E da união dessas duas forças da música experimental brasileira nasceu um trabalho sem padrões para comparação. Com vocês, Anganga.

As 08 faixas do álbum, que saiu via Quintavant/Sinewave em outubro último, são reinterpretações da dupla para vissungos (cantos de trabalho) recolhidos pelo linguista Aires da Mata Machado Filho na década de 20 em Diamantina (Minas Gerais), cantos do Congado mineiro e duas composições autorais. Mas tudo isso você lê no release do disco.

O que não se lê, e onde está a real magia de Anganga (que é o nome da entidade suprema do povo Banto), é o encontro musical entre Cadu e Juçara e o resultado desse choque. É como se Berlim e Zimbábue compartilhassem o mesmo espaço e o tempo corresse de forma diferente, com o moderno e o ancestral caminhando juntos. Aqui a alma preenche o barulho e o barulho conduz a alma até que não haja distinção entre um e o outro.

Enfim, é difícil colocar, em palavras, as sensações provocadas (em mim) por Anganga. Talvez o disco tenha despertado algo esquecido ou tocado em uma herança apagada, não sei ao certo. O certo é que este é um álbum extremamente desafiador, mas à partir do momento em que se aceita o desafio com mente e espírito livres, a experiência é única.

Altamente recomendado!

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Um comentário sobre “Juçara Marçal & Cadu Tenório – Anganga (2015)

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