Emicida – Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos E Lições De Casa (2015)

Por Caique Padovan (Forkilla)

Fomos apresentados aos resultados da pesquisa prescrita feita por Emicida em seu laboratório, que em grande parte do tempo é usado como um estúdio de gravação. Os dados para os estudos foram recolhidos em campo, partindo da experiência de sua viagem à África e aplicando ao seu cotidiano no território brasileiro. Em seus textos é fragmentada a falácia da inexistência do preconceito racial e religioso. Ele não só afirma uma realidade opressora como vai muito além do que é esperado; não contente em acabar com os falsos jargões, é responsável por exaltar toda a beleza da cultura afro-brasileira e de seus herdeiros. Ao comprovar a capacidade do seu som de ainda andar pelas quebradas, também prova sua eficiência de entrar nas casas, escolas e templos. Para ser bem mais específico com o último ambiente citado: um terreiro.

Bebendo na fonte da música popular, não faz questão de esconder a força de seus orixás. Entre gírias e poesias se faz o louvor, a gira é transportada do terreiro para todas as regiões brasileiras. A tira do restrito espaço que é obrigada a ficar, por pura repressão de uma sociedade cristã, e mostra seus costumes aos desconhecidos. Assim como fez Criolo em Nó Na Orelha, Emicida também faz a junção do batuque, do rap e do samba em Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa… Poucas são as diferenças, talvez até a importância de ambos os trabalhos seja a mesma. O que se expõe é uma aceitação da cultura negra como a raiz de tudo o que é feito atualmente.

E qual é a melhor forma de levar a mensagem em direção aos ouvidos de quem deve escutá-la se não fazer de mediadora a cultura a qual é alvo de tanta repulsa. Desta forma, afasta a má impressão causada pelo não conhecimento. Apresenta aos desconhecidos a história que tantos carregam na pele, o sufoco e as alegria pelas quais passam, levando o ouvinte a uma reflexão sobre o assunto.

Um pé no terreiro e outro na rua. De faixa a faixa Emicida constrói um sólido cenário entre o popular e o batuque, com o samba bem representado em “Mufete”, e o rap, melhor representado em “Mandume”, como intermediários. O destaque vai para a participação de Vanessa da Mata em “Passarinhos”, o que soa de mais pop no disco. Juntas, as 14 músicas do álbum formam um grande manifesto, chamando a atenção para as questões raciais que ainda existem no país e abrindo caminho para todo seu movimento cultural.

Ainda falando doas faixas de forma individual, citamos a participação de Caetano Veloso em “Baiana”, que mais parece um contraponto regional à música “Sampa”, do mesmo cantor. Só que esta em questão é uma batucada capaz de transportar-te à Salvador que ali é cantada, que também serve de cenário para a percussão ritmizada da descrição, na voz de um homem, de uma mulher tão bela quanto a divindade dos orixás, por quem é impossível não se encantar. Chegando a partilhar do mesmo sentimento do individuo, ficamos aflitos quando então percebemos que ali é retratada a paixão no momento que a narrativa ainda enfatiza o instante em que o personagem, enum momento de delírio, ficciona a imagem de sua amada. De resto “é o mito Iorubá, bonito pode pá”.

Emicida nos surpreende com a necessidade de ter que levantar assuntos como o racismo numa sociedade onde a questão deveria ser diária. Ele se impõe, dizendo que o ato não será mais tolerado; o que faz é tomar seu lugar no protagonismo dessa luta, não cedendo a quem não quer vê-lo ali. Em Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa deixa claro que não baixará a cabeça.

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