PCP Entrevista – Jair Naves

Jair Naves parece ser um cara tranquilo. Não o conheço pessoalmente (ainda), mas pelas ideias que trocamos virtualmente dá pra perceber que ele passa longe de palavras como afetação ou egocentrismo, estereótipos que rondam perigosamente o universo roqueiro, seja ele alternativo ou não.

Compositor afiado, de letras fortes e diretas, Jair lançou em setembro último o primeiro disco cheio de sua carreira solo, E você se sente numa cela escura, planejando a sua fuga, cavando o chão com as próprias unhas, onde pode-se comprovar seu talento na hora de escrever verdadeiras narrativas literárias em forma de música.

O ex-baixista do Okotô e ex-frontman do seminal Ludovic passeia agora por diferentes paisagens sonoras, menos barulhentas, mas igualmente confessionais, repletas de melancolia, vísceras, inteligência e tormentas. Em meio a toda essa carga emocional o PCP bateu um papo, via e-mail, com este que é um dos grandes nomes da música brasileira da atualidade.

Confira.

Jair em momento ‘homem duplo’. Foto: Patrícia Caggegi

PCP: Como se deu a saída do Ludovic para o começo da carreira solo? Rolou algum tipo de desgaste ou desentendimento com a banda?
Jair: Aconteceu da forma mais natural possível. Dediquei quase dez anos da minha vida ao Ludovic. Quando o grupo acabou (pelos motivos típicos, sendo desgaste nas relações e divergências artísticas os principais), eu me sentia sem energias para montar uma outra banda nos mesmos moldes de funcionamento. Decidi gravar umas músicas sozinho, com a ajuda de alguns poucos amigos tocando os instrumentos que eu não sei tocar, para ver o que saía. Felizmente, está dando certo.

PCP: Quem estava acostumado a sonoridade de sua antiga banda sentiu algo como uma pisada no freio nos seus trabalhos solo, confere? Mesmo nas faixas mais ‘tranquilas’ do Ludovic havia uma pegada mais punk, que não se repete mesmo nas mais pesadas dos seus discos solo. O que rolou nesse período de transição?
Jair: Bom, essa mudança de sonoridade já vinha sendo esboçada mesmo na época do Ludovic. No segundo disco, “Idioma Morto”, havia duas músicas registradas apenas com voz e violão (“Unha e carne” e “Sob o tapete vermelho”), o que demonstra uma antiga intenção de sair um pouco das características pelas quais aquela banda ficou conhecida. Seja como for, houve uma mudança de influências no decorrer dos quatro anos que separam o último disco do Ludovic do EP “Araguari”. E uma tentativa consciente de não me repetir, de não fazer coisas que não remetessem de imediato ao que eu fiz musicalmente no passado – além de uma evolução como compositor, músico e intérprete, de uma segurança maior para me arriscar em caminhos ainda não explorados.

PCP: Na música “Araguari” você diz sentir saudades de sua banda, dos palcos, etc. Até que ponto isso é verdadeiro? Rola (ou rolou) uma saudade dos tempos de Ludovic?
Jair: Depois que o Ludovic acabou, eu fiquei quase dois anos afastado dos palcos. Pode parecer pouco, mas para mim durou uma eternidade. Durante um período eu cheguei a acreditar que jamais tocaria de novo, que essa história de banda de rock ficaria atrelada a uma época da minha juventude que já tinha acabado. Desse raciocínio que saíram esses versos de “Araguari I (Meus Amores Inconfessos)”, uma música que fala basicamente sobre envelhecimento.

PCP: Foram quase 3 anos entre o EP ‘Araguari’ e ‘E Você se Sente…’. Dá pra falar um pouco sobre o processo de criação do disco, o que te influenciou nessa fase de concepção e o que mudou em relação ao EP.
Jair: Esse foi o disco de gravação mais tranqüila que eu fiz até hoje. Méritos da excelente equipe com quem eu pude contar nessa oportunidade: Renato Ribeiro (guitarra, violão de cordas de nylon e vibrafone), Thiago Babalu (bateria), Alexandre Xavier (piano) e os dois excelentes baixistas que se revezaram nas sessões, Alexandre Molinari e Adriano Parussulo. Sem contar o fato de termos gravado no Estúdio El Rocha com o Fernando Sanchez, que contribuiu enormemente para o resultado que tivemos.

A ideia para esse disco é tentar algo quase ao vivo, que soasse muito urgente, orgânico, pulsante, sem correções de pós produção, sem autotune ou coisas do gênero. Eu queria um álbum à moda antiga, que não tivesse essa perfeição plastificada, ilusória e sem vida característica dos lançamentos de hoje em dia. E acho que foi o que conseguimos.

Os arranjos foram lapidados em longos meses de ensaio em que o Renato, Babalu e eu ficamos moldando as ideias iniciais que eu levava para eles. Devo muito aos dois, o disco é tanto deles quanto meu.

Foto: Patrícia Caggegi

PCP: Sei que você gosta bastante de bandas do pós-punk. Quais as suas influências e inspirações musicais (inclusive na hora de compor) – e extra musicais (literatura, cinema, etc)?
Jair: São muitas, quase inumeráveis: Replacements (e o Paul Westerberg na carreira solo), Neil Young, Walter Franco, Vzyadoq Moe, Marina Tsvetaiéva, Joni Mitchell, Rufus Wainwright, Ian McEwan, Jorge Amado, La Carne, Walkmen, Bob Dylan, J.M. Coetzee, Gregory Corso, Caetano Veloso, Jonathan Caouette, Yasujirô Ozu, Smiths… enfim, melhor parar por aqui.

PCP: Como é viver de música atualmente no Brasil? Dá pra se manter dignamente disponibilizando discos pra audição/download e não tocando pra multidões?
Jair: Dá, claro, mas não é fácil. Nada fácil, a bem da verdade. No que diz respeito a retorno financeiro, definitivamente não é o ramo profissional mais aconselhável.

PCP: Falando em downloads, qual a tua postura em relação a isso? É um assunto que divide opiniões entre os músicos…
Jair: Nosso último disco foi lançado primeiramente na internet, disponibilizado desde o primeiro instante para download, no melhor formato possível. É dessa maneira que eu encaro o tema. Acho fundamental para qualquer músico independente colocar a própria obra na internet em boa qualidade. Assim você se certifica de que os arquivos chegarão aos ouvintes de forma apresentável, divulgará seu trabalho de forma adequada e fará com que as pessoas do seu público que ainda compram discos queiram adquirir o seu material. Dadas as atuais circunstâncias, considero essa a melhor saída.

PCP: Pra terminar, deixe um recado pros nossos leitores
Jair: Muito obrigado pelo espaço, Fábio. Quanto aos leitores, bem, espero que vocês possam dar uma chance às nossas músicas. Em 2013 tentaremos ir ao maior número possível de cidades com a turnê desse disco novo. Espero encontrar vocês todos nos shows.

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