Patti Smith – Banga (2012)

Por Vinil (Trovas de Vinil)

Patti Smith é, sem a menor sombra de dúvidas, a mulher mais inteligente que já surgiu no universo do Rock ‘n’ Roll. Não canta como Janis Joplin ou Tina Turner; não tem o glamour punk/new-wave de Debbie Harry, não é tão agressiva e/ou arrogante como Joan Jett e muito menos diva-oportunista-rebolativa-comercial como Madonna, Beyoncé ou Barbra Streisand.

Avessa a estratégias de marketing que ditam as regras do mainstream fonográfico, Smith foi uma poetisa que adentrou os portões do Olimpo do Rock por mero acaso e que se manteve distante dos clichês regidos pelo trinômio Sexo, Drogas e Rock ‘n’ Roll.

Oriunda de uma família de classe média baixa dos EUA sempre foi uma mulher simples e fiel a seus princípios morais e às suas referências artísticas (Arthur Rimbaud, Allen Ginsberg, Jimi Hendrix, Jim Morrison e Bob Dylan são algumas das principais). Ao mesmo tempo em que se aventurou pela música, esta senhora de 60 e poucos anos sempre publicou livros de poemas (Auguries of Innocence, de 2005 é o mais recente) e, em 2010, publicou Just Kids (em português: Só Garotos), livro que conta as suas memórias ao lado de seu grande amigo, o fotógrafo e artista plástico Robert Mapplethorpe (1946-1989).

Auguries of Innocence, o mais recente livro de Patti Smith

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Patti Smith manteve sua carreira de poetisa em paralelo com o Rock ‘n’ Roll. Em Just Kids, a performer conta como se iniciou na carreira artística e relata a importância de Robert Mapplethorpe para a sua formação como mulher e artista.

Sua discografia, no entanto, merece comentários mais extensos do que meras menções neste post: seu an-to-ló-gi-co (sim, separado por sílabas!) disco de estreia, Horses (1975), é um dos discos mais importantes dos últimos tempos e seus demais álbuns – Radio Ethiopia (1976), Easter (1978), Wave (1979), Dream of Life (1988), Gone Again (1996), Peace & Noise (1997), Gung Ho (2000), Land (1975-2002) (2002), Trampin’ (2004), Twelve (2007) e Outside Society – Looking Back: 1975-2007 (2011) – são provas definitivas de como a aliança entre poesia, Rock, atitude, humildade e engajamento é algo que faz de Patti um verdadeiro clássico, porém, às vezes, perdido: infelizmente são poucos os brasileiros que conhecem o poder de fogo que Patti Smith lança através de suas performances gravadas em discos e livros!

Banga é o 13.º álbum lançado por Mrs. Smith (incluindo coletâneas e trabalhos de canções inéditas). Concebido entre viagens de Patti pelo mundo, é um trabalho que dialoga diretamente com Just Kids, pois os dois projetos revelam ao grande público o universo particular de Patricia Lee Smith: seus amores, seus ideais artísticos, sua íntima relação com Mapplethorpe, seus olhares sobre o que aconteceu no mundo nos últimos cinco anos, sua saudade dos que já se foram deste mundo… (Amy Winehouse, Johnny Depp, Maria Schneider, Nikolai Gogol, Américo Vespúcio e Andrei Tarkovsky são alguns dos homenageados por Patti Smith em Banga.

A coleção de 12 canções que compõe este disco fala das mais variadas formas de viagem – relatos de um explorador (“Amerigo” – em homenagem a Américo Vespúcio), voos literários e cinematográficos (“April Fool” e “Tarkovsky” – tributos ao escritor russo Nikolai Gogol e ao cineasta russo Andrei Tarkovsky), ondas devastadoras (“Fuji San” – Rock composto para homenagear o povo japonês, seriamente abalado pelo terremoto e pelo tsunami que se abateu sobre o seu território em 2011), baladas em homenagem a uma menina tristonha e a um ícone da sétima arte (“This is the girl” e “Maria” foram compostas para homenagear a cantora Amy Winehouse e a atriz Maria Schneider, mortas em 2011), um mosaico de sons e outro caleidoscópio de imagens (“Mosaic” – que narra uma viagem de Patti pela Turquia), uma ode ao astro de cinema e uma lullaby song para o querido afilhado (“Nine é uma homenagem a Johnny Depp; já “Seneca” é um mini-diário de aventuras e conquistas poético-musicais dedicado a Seneca Sebring), o projeto transcendental de um velho italiano e o protesto do velho roqueiro canadense (o épico “Constantine’s Dream” – de mais de 10 minutos – descreve um sonho que Patti teve em 1988 e uma belíssima releitura de “After the Gold Rush”, de Neil Young, resgatando o lamento de 1970 para as gerações que sofrem com os autoritarismos da espécie humana em pleno século XXI)… Estes pares todos entremeados pelo latido intermitente de um cão (“Banga” é o nome do cão do romance russo Magarita e o Mestre, de Mikhail Bulgákov) vindo diretamente da ficção para nos avisar: “Believe or Explode!” (Creia ou Exploda!).

Concebido após o lançamento de seu livro de memórias, Banga foi gravado no Electric Lady Studios (construído e popularizado por Hendrix) e é mais uma colaboração de Patti, seus já habituais parceiros musicais (o guitarrista Lenny Kaye, o baterista Jay Dee Daugherty e o baixista e tecladista Tony Shanahan), alguns convidados especiais (Johnny Depp toca bateria e guitarra na faixa-título; já Tom Verlaine, guitarrista do Television e velho amigo de Smith, participa de “Nine”) e membros da família (Jackson Smith e Jesse Paris Smith, frutos do casamento de Patti com o guitarrista do MC-5, Fred “Sonic” Smith, tocam, respectivamente, guitarra e piano em algumas faixas deste trabalho).

Há pessoas (eu me incluo nesta lista!) que acreditam que Banga é o melhor trabalho lançado por Patti Smith desde Easter. Existem outros que dizem que este está entre os melhores discos lançados em 2012 (nisto eu também concordo!).

Trata-se de um disco com referências poéticas mais evidenciadas pela própria autora no encarte deste trabalho e que deixa a ferocidade do discurso punk em segundo plano. De fato, é um disco que não carrega a agressividade tão característica de trabalhos anteriores como Radio Ethiopia e os gêmeos Gone Again e Peace & Noise, mas ainda mantém Patti como um baluarte do Rock mundial e pode tornar seu legado musical ainda mais perceptível para os jovens do século XXI que deveriam conhecê-la e/ou ouvi-la com mais frequência. Porém, o mais recente trabalho de Patti não deixa de ser um grande disco de Rock. Afinal, ouvir música inteligente em tempos não tão inspirados como os nossos é mais do que uma necessidade: é uma obrigação! Como diria o mote deste disco: “Believe or Explode”!!!

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