Um Musical Maldito: A Tragédia Latino-Americana

Foto: Patrícia Cividantes

Foto: Patrícia Cividantes

Por Sarah Rogieri

Se você acha que falta a sinceridade do punk nos musicais, a agressividade da urgência no teatro e um lado político que não seja nem esquerda, nem direita: essa peça é para a sua asfixia.

O desejo do diretor Felipe Hirsch (A Menina Sem Qualidades – MTV), consagrado pela fase em que trouxe o pop dos discos ao palco, com A Vida é Cheia de Som e Fúria – lá em 2000 -, ao se juntar com o grande e inquieto músico, Arthur de Faria – aqui em 2016 -, foi partir da escrita como linguagem e estender o passo dado em Puzzle rumo à experimentação, mas desta vez criando espaço para um musical que fosse mal e anarquista, que estampasse um pouco da sobriedade e da loucura monocromáticas e atonais frente ao colorido consonante que tem esgotado as bilheterias.

Concebido como Puzzle para devolver a importância vital e cultural ao teatro pela relevância de que cada apresentação fosse um evento único com artistas distintos, o ambicioso projeto teatral A Tragédia Latino-Americana e A Comédia Latino-Americana foi dividido em duas partes que se revezarão ao longo deste ano – começando pela estreia, é claro, da Tragédia (senão, do que vamos rir depois?). Mas é já a partir do nome que a peça começa a desconstruir as polaridades extremas (entre outras coisas) que tanto andam fazendo parte da nossa realidade. Indiferente às definições, as duas partes confluem entre o cômico e o trágico, o épico e o contemporâneo, o texto dramatúrgico e os feeds das redes sociais. As múltiplas influências que compõe a América Latina se mostram uma tentativa disfuncional de construir sua própria identidade – o que já contém em si a comédia e a tragédia – e nos deixa rastros amargos de um pó tóxico europeu.

Mas se você se perguntar, como eu, como uma peça de teatro poderia compilar a tragédia da história desse continente cheio de contrastes que é o nosso, o Felipe rapidamente vai se livrar da questão e dizer que optou só pelos malditos, esquecidos, suicidas, jovens; quase nenhum clássico. E ele poderia estar descrevendo o melhor dos festivais de música, mas está falando de escritores (sim, eles ainda [r]existem). Uma grande seleção inicial cedeu lugar ao mais fino line-up de 20 textos entre HQs, romances, contos, poemas, anedotas de blog e ensaios. Juntos, exploram formas estranhas (no melhor sentido da palavra) para dividirem o palco; são desconfortáveis e lindos, permeados por músicas delicadas e barulhentas. Hirsch mostra uma sanidade absurda para organizar a loucura particular de cada um em 4 horas de peça e dias de reverberações.

Foto: Patrícia Cividantes

Os 12 atores – escolhidos a dedo – reinventam o cenário improvável criado por Daniela Thomas e Felipe Tassara: aproximadamente 100 blocos gigantes de isopor vindos direto de fábrica. Crus. E são testados de todas as formas possíveis ao longo do espetáculo; de mesa de ping pong a moedas e tijolos que, representados por esse material, se tornam mais infantis e, por isso mesmo, mais “agressivos” segundo as palavras do próprio diretor.

A banda não fica nada atrás na experimentação. Executada ao vivo e liderada pelo Arthur (com o auxílio cuidadoso do Gustavo Breier e outros 4 músicos), ela é composta por piano + baixo + guitarra + bateria + tímpano + xilofone + fagote (pasme, o grande protagonista), e foi batizada de Ultralíricos Arkestra pelo próprio Arthur, numa homenagem linda ao Sun Ra (que certamente enlouqueceria com a peça). Espere muito improviso e muito Free Jazz entre as cenas.

Então pegue um fim de semana sem shows e assista a esse. Ele não tem começo meio e fim. Nós não temos começo meio e fim. Temos fragmentos. Temos lapsos de loucura e frestas de beleza. Temos caos destrutivos e intoxicações com novas esperanças e novas (re)construções. Ainda somos humanos e ainda sabemos respirar.

Não espere conhecer a tragédia da América Latina: espere sentir. Primeiro, as canções trágicas. Depois, as menções que refletem o presente e clamam um futuro não-tão-passado.

Assim como o isopor, a peça é 99% feita de ar.

Segue a playlist de textos da peça, compilada por Felipe Hirsch*:

LADO A

Prólogo Três Tigres Tristes – Guillermo Cabrera Infante (CUB)
Filosofia – Gerardo Arana (MEX)
Escola Primária – Marcelo Quintanilha (BRA)
Carta Número 2 – Reinaldo Moraes (BRA)
Tomai e Comei, Isto É O Meu Corpo; Era 28 de Novembro, Aniversário de Marilena do Nascimento; Dentro de Uma Caixa de Sandálias Azaléia, Jazia Um Menino – Dôra Limeira (BRA)
arta a Un Escritor Latinoamericano – Leo Maslíah (URU)
La Poesía Latinoamericana – Roberto Bolaño (CHI)
Vistos Bengalas, Bebês e Diamantes – Gerardo Arana (MEX)
Primera Canción Trágica – J.R. Wilcock/Arthur de Faria (ARG/BRA)

LADO B

El Traductor – Salvador Benesdra (ARG)
Epígrafe O Terreno de Uma Polegada Quadrada – Samuel Rawet (BRA)
Te vi na TV – Glauco Mattoso (BRA)
Xote Sem Saco – Arthur de Faria (BRA)
A Nova Califórnia – Lima Barreto (BRA)
Agua Podrida – Leo Maslíah (URU)
Canción Tardía Por Los 500 Años – Leo Maslíah (URU)

SINGLES

Dupla e Única Mulher – Pablo Palacio (ECU)
A Carne – Virgílio Piñera (CUB)
Los Amantes – J.R. Wilcock (ARG)
O Banheiro – J.R. Wilcock (ARG)
O Vaidoso – J.R. Wilcock (ARG)
A Questão Hamlet – J.P. Zooey (ARG)
Réquiem Para O Homem de Barro – J.P. Zooey (ARG)
Os Bruzundangas – Lima Barreto (BRA)
Destinitos Fatales – Andrés Caicedo (COL)

*A ordem e os textos variam a cada apresentação.

Não perca este pequeno clássico!

Serviço:

A Tragédia Latino-Americana e A Comédia Latino-Americana – Primeira Parte: A Tragédia Latino-Americana – Em cartaz de 17/3 a 17/4, no Teatro Anchieta (Sesc Consolação) – SP.

Link oficial: SESC SP

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