The Chemical Brothers – Exit Planet Dust (1995)

Quando penso em todas as transformações pelas quais a dance music passou durante os anos 90 até chegar no que é hoje, e principalmente nas transformações que ela me causou durante o mesmo período, duas palavras explodem em minha cabeça: Chemical Brothers.

Obviamente Tom Rowlands e Ed Simmons não são pioneiros do multifacetado gênero eletrônico que há anos arrasta multidões à clubes e raves, mas se gente como David Guetta, Skrillex e outros faturam milhões de dólares e pôr as pessoas para dançar se tornou negócio, muito se deve aos dois ingleses. Mas deixemos de lado esse papo econômico e voltemos no tempo, para o final dos anos 80/começo dos 90, o segundo verão do amor e, claro, Manchester…

Tom e Ed eram então dois jovens estudantes de história medieval na Universidade de Manchester, frequentadores do Haçienda e viciados em New Order, Kraftwerk, Public Enemy, My Bloody Valentine e Cabaret Voltaire. A paixão pela música rapidamente uniu os dois, que juntaram seus vinis e começaram a discotecar no Naked Under Leather, um clube que ficava nos fundos de um pub; os sets já mostravam o que viria pela frente: techno, hip hop, house, rock, tudo misturado. Os moleques se intitularam Dust Brothers, e o futuro começava…

Num curto intervalo de tempo, mais ou menos um ano, passaram a se aventurar no terreno das produções caseiras. Usando um aparelho de som Hitachi, um computador, um sampler e um teclado criaram “Song to The Siren”, usando samples de Meat Beat Manifesto e This Mortal Coil. Saíram com 500 cópias do single embaixo do braço pelas lojas de Londres, e a música chegou às mãos de Andrew Weatherall, que a acelerou um pouco e a lançou pelo selo Junior Boy’s Own Records. Nesse meio tempo a dupla se formou na Universidade e mudou-se de vez para a capital inglesa para gravar os EPs “14th Century Sky”, “My Mercury Mouth” e posteriormente assumir a residência semanal do Heavenly Sunday Social Club, onde conheceram, entre outros, Noel Gallagher, Tim Burgees e Bobby Gillespie. Era fim de 1994 e o mundo girava rápido para os Dust Brothers.

Tão rápido que no ano seguinte os Dust Brothers originais – produtores de Paul’s Boutique, dos Beastie Boys – ficaram sabendo da existência da dupla inglesa e da ‘homenagem’. Ameaçaram processá-los, e os ex-Dust Brothers britânicos se tornaram os Chemical Brothers, lançando já com o novo nome o single “Leave Home” e partindo para uma tunê pela Europa e EUA.

Mesmo sem saber, os Dust Brothers originais acabaram por dar nome ao primeiro disco de Ed e Tom: Exit Planet Dust, lançado em 1995, é literalmente a saída do ‘planet dust’ que antes servira de lar à dupla de produtores ingleses e a apresentação ao mundo do que dali em diante seria conhecido como ‘Big Beat’.

Mas rotular Exit Planet Dust é diminuir seu brilho. O álbum, que em 2002 foi nomeado pela revista Muzik como o segundo melhor disco de dance music de todos os tempos (ficou atrás de Entroducing, do DJ Shadow, acredite você ou não) é um prisma que reúne tantas cores quantas se possa enxergar, de olhos abertos ou fechados. Breakbeat elástico com graves explosivos, acid house com sirenes e apitos barulhentos, hip hop sem rimas, dub, toda a carga psicodélica do madchester (o já citado Tim Burgees, vocalista dos Charlatans, canta no hit “Life is Sweet”), tudo isso e mais é derretido no caldeirão lisérgico dos Chem Bros. O resultado é dance music orgânica, um poderoso maquinário vivo e pulsante que durante pouco menos de 50 minutos extasia corpo e mente.

Anos depois Tom Rowlands disse que durante as gravações de seu debute eles chegaram a ficar acordados por três semanas, e Ed Simons declarou à Muzik que eles queriam refletir no álbum a época e o espírito da juventude de então.

Penso que nas semanas em que a dupla ficou de pé construindo essa peça-chave da música eletrônica conseguiu realmente captar a essência do tempo em que estavam, com suas múltiplas sensações e diversos caminhos se mostrando mais e mais (a cada noite no Hell’s, na Sound Factory, nas festas no prédio de química da USP)…não havia amarras estéticas, só havia possibilidades, e quando não há limites e a liberdade criativa não conhece barreiras, basta fazer. Exatamente como os Chemical Brothers em Exit Planet Dust.

Essencial!

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