Björk – Vulnicura (2015)



Björk faz do rompimento o tema no seu excelente novo disco

Por Alejandro Mercado (A Escotilha)

Björk acaba de lançar um novo disco. Para uma artista com quase 30 anos de carreira, talvez pudesse ser apenas e tão somente mais um álbum. A verdade é que a cantora e compositora islandesa não tem presenteado seus fãs com bons registros, em especial nos últimos anos.

A artista é conhecida por sua capacidade de fazer simbioses entre os mais variados gêneros e utilizando inúmeros instrumentos e tecnologias. Seu papel como desbravadora no mundo da música é inegável, mas é sempre difícil saber qual a Björk que encontraremos. Se a hipnótica de Biophilia (2011) ou absurdamente introspectiva de Volta (2007).

Dela tudo pode se esperar, seja no estilo, protagonizando a artista pop e rebelde, seja a cantora com um incrível controle criativo sobre cada ponto em sua obra, ou ainda a musicista geniosa que parece por vezes cantar e compor para si, num trabalho em que, nos shows, a única presença necessária é a de seu próprio ego.

Vulnicura, seu novo – e décimo – disco de estúdio, vazou algumas semanas antes de seu lançamento oficial. Como o propósito deste artigo é falar sobre o álbum, confesso que talvez para ela o vazamento tenha sido um fator positivo. O disco apresenta uma Björk muito mais humana e emocionalmente sincera ou, como classificou a Pitchfork, um CD com músicas sobre finais de relacionamento. Neste caso, sobre o fim do casamento entre ela e o escultor, fotógrafo e cineasta Matthew Barney.

Composto por nove faixas, foi produzido, escrito e gravado pela artista, com colaborações do produtor venezuelano Arca (produtor de Yeezus do cantor Kanye West), que também se apresenta ao vivo com ela na atual turnê, e do músico britânico The Haxan Cloak.

Mas não espere de Vulnicura o mesmo que Cícero fez com Canções de Apartamento (também composto sobre o fim de um relacionamento). Björk vai além, narra a cronologia da tempestade sentimental deste momento conturbado, composto pela pré separação, o turbilhão de emoções no momento seguinte ao rompimento e a lenta recuperação emocional.

“History of Touches”, terceira faixa do CD, é talvez uma das melhores. Cantando delicadamente “I wake you up / In the middle of the night / To express my love for you”, a islandesa nos convida para viver de forma mais profunda toda sua ambição artística impressa no disco. É uma faixa triste e densa, característica esta última de toda sua obra.

Em “Black Lake”, Björk nos apresenta sua obra-prima. O instrumental, composto por batidas eletrônicas entrelaçadas com violinos, numa espécie de réquiem, demonstra como a cantora (e apenas ela) é capaz de transformar uma música ao longo de suas linhas vocais e dos ápices instrumentais nos mais de mais de dez minutos em algo que queremos acompanhar. Do início ao fim. “I am bored of your apocalyptic obsessions / Did I love you too much?” canta, enquanto acompanhamos o desdobrar de sua musicalidade.

Vulnicura possui uma das maiores entregas vocais e sentimentais da artista, com arranjos equilibrados e que traduzem perfeitamente tudo que a cantora gostaria de passar, desde a angústia até o renascimento do orgulho próprio. Ela espremeu toda sua emoção para trazer um trabalho reconfortante que definitivamente reafirma sua identidade artística.

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