PCP Entrevista – Herod

Quem acompanha o rock independente brasileiro nos últimos anos com certeza já ouviu o nome Herod (ex-Herod Layne) e também sobre o trabalho de (parte de) seus membros à frente do selo virtual Sinewave, criado dois anos após a formação da banda como forma de juntar sob o mesmo teto e distribuir na rede – sempre gratuitamente – outros grupos com propostas musicais igualmente ‘tortas’.

O Pequenos Clássicos Perdidos bateu um papo rápido por email com o gente finíssima Elson Barbosa – guitarrista e baixista da Herod e uma espécie de CEO às avessas da Sinewave – pra saber como foi a história de abrir os show do Cure no Brasil, sobre o novo álbum da banda, sobre grana X música…enfim, leiam a conversa abaixo e depois corram pro site da Sinewave e baixem de graça o Umbra e outras pedradas disponíveis por lá.

Herod

Herod

PCP: Não dá pra fugir deste assunto, então vamos começar com ele: como rolou o convite abrir pro Cure? (Pegou vocês de surpresa? São fãs da banda? Mudou algo pra Herod?)
Herod: Rolou totalmente por acaso, e da maneira mais surreal possível. Um dia chegou um email da produtora pedindo “contato urgente referente a dois shows em abril”. Na hora estranhamos, imaginamos que seria no máximo alguma oportunidade para um show pequeno. A resposta seguinte foi ainda mais surpreendente – “Abertura para os shows do The Cure no RJ e SP. A banda teria interesse?”. Ainda sem acreditar respondemos que sim, e dois emails depois os shows estavam confirmados. Foi ainda mais surreal quando soubemos que quem nos escolheu foi o próprio Robert Smith, depois de ver vídeos nossos no YouTube. Eu já era fã de longa data do The Cure, passei minha adolescência gastando meus vinis do Pornography, The Top, The Head On The Door. Depois desses shows fiquei ainda mais fã deles não só por causa do convite, mas principalmente pela humildade que o Robert Smith demonstrou, ao fazer questão de escolher pessoalmente as bandas de abertura para seus shows, pesquisar, se interessar. Foi inacreditável ele ter ido ao nosso camarim para nos conhecer e nos elogiar – deveria ser o contrário! Foi uma experiência sensacional.
Se mudou algo pra Herod? Acho que sim. Banda de abertura normalmente é esquecida logo no primeiro acorde da banda principal, mas sei de bastante gente que conheceu nosso trabalho ali no Anhembi e acabou pesquisando depois. Recebemos diversos elogios depois dos shows, de pessoas que não nos conheciam. Recentemente tocamos em Curitiba, e um casal foi nos cumprimentar dizendo que viu nosso show em SP e saíram de Santa Catarina para Curitiba somente para nos ver novamente. Esse tipo de coisa não tem preço.

PCP: Falando do disco novo: como foi o processo de composição e gravação? Como tem sido a repercussão após o lançamento e por que a decisão em ‘encurtar’ o nome?
Herod: O processo foi bem diferente dos discos anteriores. Antes íamos para o estúdio com as composições mais cruas, sem muito ensaio, e decidíamos várias coisas no momento da gravação. No Umbra o processo foi o oposto – treinamos muito as músicas em ensaios e shows durante mais de um ano, até elas estarem totalmente prontas para a gravação. Enquanto os outros discos duraram de quatro a seis meses em diferentes sessões de estúdio, esse levou quatro dias. Também tivemos mudanças de formação. O Lucas Lippaus havia entrado na banda nos últimos dias de gravação do Absentia, nosso disco anterior, e teve uma participação muito pequena. Dessa vez ele participou desde o início, e com a quantidade de influências que ele trouxe, acabou mudando totalmente o estilo da banda e o foco do trabalho, ficou muito mais pesado e experimental do que os discos anteriores. E também tivemos a participação e produção do Joaquim Prado, o “quinto Herod”, que também foi o responsável por mudar tudo.
Tínhamos gravado uma pré no início de 2012, e já considerávamos que o disco estava fechado, era só marcar o estúdio e gravar. Quando o Joca entrou no projeto, o disco foi praticamente refeito – eliminamos músicas, refizemos arranjos, compusemos coisas novas, praticamente recomeçamos do zero e fizemos outro disco. Se não fosse o Lippaus e o Joca, o Umbra seria bem diferente. Tanto que vem daí a decisão de encurtar o nome, para formalizar que a banda é praticamente outra, com outras influências e outro foco. E também para facilitar – ninguém entendia ou acertava Herod Layne, agora Herod está mais fácil (risos). E a repercussão tem sido muito bacana, ficamos sempre felizes quando lemos elogios por aí.

PCP: O rótulo ‘pós-rock’ serve pra Herod? E uma pergunta clichê: quais as influências da banda?
Herod: Acho que sim. Na verdade, para esse disco procuramos nos distanciar um pouco do pós-rock ‘clássico’, e tentar buscar umas ideias novas. O Lippaus e o Joca tiveram um papel crucial nisso. Tínhamos uma música que gostávamos muito que era bem pós-rock tradicional, épico etc. Foi a primeira que o Joca descartou do disco. Na hora assustamos, mas depois demos razão – já havíamos feito aquilo antes, precisávamos de algo novo. Foi aí que abrimos espaço para outras ideias e influências. Para esse disco em específico ouvimos muito Sunn O))), Slint, Shellac, Neurosis, This Will Destroy You (fase drone), etc. Mas eu costumo dizer que tudo o que a gente ouve na vida acaba influenciando – o próprio Pornography do The Cure que eu ouvia há mais de vinte anos está de alguma forma no Umbra.

PCP: Quem nasceu primeiro, a Herod ou a Sinewave? E falando em Sinewave, o selo tem lançado muito material. Tem rolado conciliar as atividades do selo e da banda?
Herod: A Herod nasceu primeiro, em 2006. A Sinewave nasceu em 2008, justamente para linkar bandas que tinham a ver com a Herod e com as quais podíamos trabalhar juntos. O selo não nos toma muito tempo, dá pra conciliar a banda e o selo sem nenhum problema.

PCP: Ainda nesse gancho banda/selo, de ambos os pontos de vista como vocês enxergam e avaliam a atual cena independente brasileira (distribuição, compartilhamento na rede, locais pra tocar, retorno financeiro, etc).
Herod: Acho que é uma época bastante paradoxal. Nunca foi tão fácil gravar, publicar e divulgar seu trabalho, e existem dezenas de bandas excelentes fazendo isso todos os dias. Por outro lado, a oferta é muito maior que a demanda, existem muito mais bandas do que público para consumí-las. É daí que temos shows vazios, público desinteressado, bandas tocando para os amigos, etc. Não é uma cena sustentável, e transpor essa barreira é algo muito difícil, por isso costumamos encarar a Herod e a Sinewave como um hobby ou algum tipo de esporte, em que é natural aplicar tempo e dinheiro com a condição única de buscar a diversão disso, sem propriamente esperar um retorno financeiro. Não é exatamente a melhor forma de se manter um projeto, mas é justamente esse pensamento que nos abre portas para fazer o que quisermos. Se a Herod ou a Sinewave fossem empresas feitas para dar lucro e bancar nossos aluguéis, certamente estaríamos fazendo outra coisa, trabalhando com outro tipo de música ou desistindo de vez. Não faria sentido insistir em algo que só dá prejuízo. Por sorte temos empregos que bancam esses hobbies, e a diversão sempre compensa.

PCP: Agora que são famosos (risos), quais os planos pro futuro?
Herod: Famosos onde? (risos). Plano agora é fazer shows e mostrar esse trabalho ao vivo. Gostaríamos muito de tocar nos festivais pelo Brasil, vamos começar a nos programar para isso. E já começar a trabalhar no disco novo. Temos dezenas de ideias guardadas esperando serem trabalhadas, de repente ano que vem sai algum EP novo ou algo assim.

PCP: E pra finalizar, deixem um recado pros leitores do PCP
Herod: Façam barulho!

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