Nirvana – In Utero (1993)

InUtero

 

 

Eu comecei a escrever mentalmente esta história enquanto brincava com meu filho à tarde. Divagando um bocado, pensei: “Porra, daqui há uns 10, 15 anos, quando o Raul – hoje com 3 anos e fã de Ramones – for adolescente, talvez ele use uma camiseta do Nirvana da mesma forma que os moleques usam hoje, 20 anos depois dos caras terem lançado seu último disco, o In utero“.

Já tinha passado por algo semelhante antes, vários anos atrás, enquanto tomava cerveja com dois guris e uma menina dez anos mais novos que eu, todos fanáticos por Nirvana como se Kurt Cobain ainda estivesse vivo. Entre um gole e outro, eu contava histórias pessoais relacionadas à banda, sobre como foi viver o nascimento e a ‘morte’ do grunge, sobre o show do Mudhoney, sobre ter perdido a noite de sábado do Hollywood Rock de 93, enfim, histórias e mais histórias sobre a primeira metade dos anos 90. Mas hoje, brincando com meu pequeno, a coisa tomou proporções maiores pois me pus a pensar sobre um futuro ainda distante, e – graças ao que tenho vivido e visto desde 1993 – entendi que nesse futuro o Nirvana vai ser como são Beatles, Stones, Who, Sabbath, Zeppellin e todas as bandas do chamado rock clássico. É, os grunges de Aberdeen serão clássicos.

 

 

Há exatos 20 anos, quando era lançado oficialmente In utero, o Nirvana era a maior banda da terra. Em 1991 haviam escancarado as portas que separavam o underground do mainstream com Nevermind, seu segundo e – para muitos – definitivo disco. A monstruosa ressaca de “Smells like teen spirit” ainda atingia a banda como ondas havaianas, e dos três quem mais se rasgava no fundo de coral dessa praia rasa era Kurt.

Mas ao menos durante as gravações de seu derradeiro trabalho, o vocalista do Nirvana não passava essa impressão. Tanto no estúdio da BMG-Ariola no Rio de Janeiro, onde In utero realmente começou a ser gerado, quanto no Pachyderm Studio, em Cannon Falls, onde foi finalizado, ele deixou apenas a impressão de ser um sujeito quieto. E isso não é uma afirmação minha, mas de Dalmo Belloti e Steve Albini, respectivamente engenheiro de som no estúdio carioca e produtor do álbum.

 

 

As fitas gravadas pelo Nirvana no Rio em janeiro de 93 foram embora com a banda após os shows realizados no Hollywood Rock, e, por assim dizer, são as sementes que germinariam 8 meses depois nas 12 faixas de In utero – ou 13, ou trocentas na reedição de luxo recém lançada. Mas não foram necessários 8 meses de trabalho com Albini para finalizá-lo, e sim duas semanas.

Nesse meio tempo a Geffen – gravadora da banda, que já havia torcido o nariz quanto à contratação de Steve Albini – recebeu o álbum e não gostou do que ouviu. Queriam um novo Nevermind, coisa que Cobain se recusava a fazer; no entanto, talvez devido a tanta pressão, ele, Dave e Krist começaram a encontrar defeitos no disco e, resumindo uma longa história – que envolve uma briga entre Albini, a mídia, a Geffen e o próprio Nirvana -, acabaram chamando o produtor Scott Litt para rearranjar as coisas, o que no fim das contas significou remixar “Heart-shaped box” e “All apologies” e aumentar o volume do baixo e dos vocais nas demais músicas.

 

 

O resultado desse imbróglio é In utero, terceiro e último álbum da meteórica (clichê? Não neste caso) carreira do Nirvana, lançado em 13 de setembro de 1993. Comprei-o logo que saiu por aqui e o ouvi a exaustão, e assim como seus dois antecessores ele fez e faz parte de diversos momentos da minha vida desde que ouvi pela primeira vez as baquetas de Dave Grohl abrindo “Serve the servants”.

Dizer que ele é maravilhosamente barulhento, que tem a canção de nome surreal que normalmente aponto como minha favorita (“Pennyroyal tea”), que foi censurado em Singapura, que teve a arte de Cobain retirada do encarte para que fosse lançado, que uma de suas faixas (“Rape me”) teve seu nome alterado na contra capa (para “Waif me”), etc, seria sentimentalismo puro – no caso de minhas impressões -, e chover no molhado – no caso dos detalhes.

Por isso vou usar um faixa a faixa feito no Twitter por alguém que considera In utero o melhor álbum de todos os tempos e assim acabo esta história. Obrigado, Juliana.

E claro, muito obrigado Nirvana!

1 – “Serve the Servants”: as baquetas de Dave Grohl anunciam que Steve Albini ouvirá, a partir de então, uma ópera-biografia irrepreensível.

2 – “Scentless Apprentice”: silêncio que precede a maior virada de bateria de abertura de faixa do grunge, a canção é uma sinfonia celestial.

3 – “Heart-Shaped Box”: aos 240 segundos do álbum a guitarra de Kurt Cobain anuncia o hino magnificente que definiria como sublime o último disco.

4 – “Rape Me”: faixa-pirraça, a canção é uma impecável crítica aos abusos comerciais que perseguiriam Kurt Cobain até seu perecimento.

5 – “Frances Farmer Will Have Her Revenge on Seattle”: deleitável soneto rancoroso, um prenúncio do fim. Último suspiro.

6 – “Dumb”: finalmente Kurt Cobain se mostra imperturbado, plácido, tranquilo e, por que não, apaixonado. Uma balada graciosa.

7 – “Very Ape”: já na primeira estrofe Kurt se lembra que está cansado e volta ao lugar de onde saimos. Primata e primoroso.

8 – “Milk it”: risada tragicômica, mordaz, satírica insultuosa e cáustica aos 3:13.

9 – “Pennyroyal Tea”: extenuado com suas dores – físicas e mentais – Kurt descansa as cordas vocais em mais uma canção repousada em lamúrias.

10 – “Radio Friendly Unit Shifter”: Cobain carimba a letra “A” no Testes de Macho.

11 – “Tourette’s”: sôfrega e enérgica, a faixa é um eufemismo perto do desespero de Kurt. Seu coração sofre por dentro e por fora. Perto e longe.

12 – “All Apologies”: ‘última faixa’ do disco; cansado, Kurt se pergunta o que mais poderia ser, dizer, escrever. Nada. Aceitamos suas desculpas.

13 – “Gallons of Rubbing Alcohol Flow Through the Strip”: In Utero acabou estou chorando.

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