David Bowie – Let’s Dance (1983)

Por Vinil (Trovas de Vinil)

I know when to go out.
I know when to stay in.
And get things done

(“Modern Love” – David Bowie – 1983)

1983 foi, definitivamente, o ano em que David Bowie brilhou como poucos no mundo da música neste planeta. O camaleão não gravava um álbum de inéditas há cerca de três anos quando lançou um dos títulos mais importantes de sua discografia: Let’s Dance.

Entre Scary Monsters (And Super Creeps) e este clássico (que completou 30 anos de lançamento em 14 de abril de 2013), Bowie esteve em recesso. Apesar de ter feito uma parceria incandescente com o Queen (“Under Pressure”) e de ter gravado com o produtor e compositor (e um dos papas da disco music) Giorgio Moroder (“Cat People”), todos esperavam um grande passo do Mestre em direção aos holofotes no ano de 1983.

Para que David Bowie estivesse pronto a fazer o seu grande retorno à cena, era preciso entender as modificações que ocorriam na cena pop da época. O surgimento da MTV acelerou a popularização do videoclipe; “Thriller”, de Michael Jackson, tinha tomado o planeta de assalto no ano anterior e Madonna já tinha iniciado seu plano (bem-sucedido) de conquista do universo pop com o lançamento de seu álbum de estreia, também de 1983. Além disto, o rock tinha definitivamente se tornado em um enorme espetáculo e dominava grandes arenas e espetáculos. O camaleão velho de guerra deveria agir de forma precisa e marcante para garantir seu espaço ao sol. E veremos como David Bowie o fez de maneira brilhante…

Primeiramente, o visual e o som: a versão 1983 de David Bowie era indefectível: cabelos louros platinados (como nunca estivera até então), ternos elegantes ao som de uma música simples, dançante e com versos diretos para a fácil compreensão do ouvinte; passo 2: seguir os conselhos dos colegas do Queen e assinar um contrato de $17,5 m com a EMI, depois de anos gravando pela RCA; terceiro passo: trocar seu fiel produtor (e escudeiro musical) Tony Visconti – responsável pela produção de cinco trabalhos de Bowie até então – pelo renomado Nile Rodgers para trabalhar em Let’s Dance. Troca realizada, tudo estava pronto para que o astro desse início às gravações das oito faixas do novo trabalho.

Rodgers, na época, já era um dos nome mais famosos do showbiz musical graças ao seu trabalho à frente da banda Chic, na qual era guitarrista, produtor e compositor ao lado de Bernard Edwards. Também produziu hits de Diana Ross, Sister Sledge, Debbie Harry (Blondie) e Carly Simon. No entanto, ao encontrar com David Bowie em uma boate de Nova Iorque, o talento deste Midas do pop foi definitivamente posto à prova. Em pouco menos de 20 dias de gravação, Nile conseguiu revirar as demos folk do camaleão de cabeça para baixo ao transformá-las em verdadeiros hinos dançantes. Conforme o esperado, a associação Bowie + Rodgers resultou no maior sucesso comercial do astro inglês até hoje. A crítica especializada reconheceu Let’s Dance como um dos melhores trabalhos do autor de “Space Oddity”. Já os fãs mais puristas acharam o disco comercial demais, devido à sonoridade pop (sem o mesmo experimentalismo de lançamentos anteriores) das canções.

O inesperado sucesso do álbum surpreendeu David Bowie. Afinal, este é um dos poucos trabalhos nos quais o artista não tocou um instrumento musical sequer no decorrer das gravações. Também é importante acrescentar que sete das oito faixas do disco foram singles (lados A e B) de relativo sucesso, o que é uma clara evidência do quanto o público de Bowie se expandiu a partir deste lançamento. Ao contrário do que muitos especialistas acreditavam, Let’s Dance é um disco tão conceitual quanto The Rise and Fall of Ziggy Stardust…(1972), Diamond Dogs (1974), Station to Station (1976) ou a trilogia berlinense Low – Heroes – Lodger (1977-1979). Por outro lado, este foi o último momento no qual o camaleão conseguiu ter uma sequência de álbuns reconhecidos por público e crítica – os sucessores Tonight (1984) e Never Let Me Down (1987) não tiveram a mesma aclamação de momentos anteriores –, prova cabal de que a crueldade artística da década de 1980 não poupou sequer o próprio David Bowie.

O reencontro com o sucesso teve como resultado a Serious Moonlight World Tour, uma das turnês mais bem-sucedidas de 1983 (o repertório, os figurinos, os músicos, as luzes podem ser conferidos no link ao final deste texto!). Por outro lado, Bowie confessou que a partir daquele período teve um longo período de crise criativa. De qualquer maneira, Let’s Dance – este pequeno álbum de apenas oito faixas – já tinha garantido ao seu autor um lugar garantido entre os clássicos absolutos da década de 1980. Destes que, nem se quiséssemos, estariam perdidos por aí…

Let’s Dance – Faixa A Faixa:

1) “Modern Love” (4:48)
Nesta faixa, Bowie já avisa logo de cara que sabe o momento certo de sair, de ficar e de como conseguir o que quer. Uma das faixas mais conhecidas do disco, era a canção escolhida para fechar os shows da Serious Moonlight Tour.

2) “China Girl” (5:32)
Composta em 1976 por Bowie em parceria com Iggy Pop para o disco The Idiot (1977), do amigo. O toque Pop dado pelo co-autor ao lado de Nile Rodgers fez com que “China Girl” fosse um dos maiores hits do camaleão em todos os tempos…

(Bowie)

(Iggy)

3) “Let’s Dance” (7:37)
Aqui, vemos como David Bowie consegue conciliar uma aura cool distante (“Put on your red shoes and dance the blues”) e um homem meramente sedutor (“If you should fall into my arms, tremble like a flower”). O clipe mostra um casal de indianos dançando ao som dos blues do camaleão… A versão original, de 7 minutos e 37 segundos oferece destaque para os sons titânicos da bateria de Tony Thompson…

4) “Without You” (3:08)
Balada romântica escrita em parceria com Audrey Auld, foi lançada como single apenas na Holanda, Espanha e Japão. A impressão à primeira audição é de que esta música saiu de um disco clássico do Roxy Music não apenas pela sonoridade incomum, como também pelo fato de que os vocais de Bowie imitam descaradamente o estilo cool de Bryan Ferry.

5) “Ricochet” (5:13)
De autoria do próprio Bowie, “Ricochet” foi a única canção do disco que não ganhou um single. Primeiro porque o resultado final desagradou o artista, que deixou os arranjos nas mãos de Nile Rodgers. Porém, há registro de um vídeo desta canção datado da época da Serious Moonlight Tour. Vale a pena ver o registro por causa das imagens da época… E só!

6) “Criminal World” (4:24)
Cover da banda inglesa Metro, este é um dos exemplos mais clássicos de como David Bowie e Nile Rodgers conseguiram arranjar esta canção tão perfeitamente que soa como se fosse uma composição escrita pelo próprio camaleão. Ouça as duas versões (a original é de 1977) e tire suas próprias conclusões…

7) “Cat People (Putting Out Fire)” (5:09)
Graças a um convite do diretor de cinema Paul Schrader, David Bowie compôs a letra para o tema principal do filme Cat People, de 1981. A versão original saiu na trilha sonora do filme e em um single pela MCA (gravadora de Moroder, na época), em 1982. O camaleão tinha planos de utilizar a mesma versão gravada para o filme em Let’s Dance, porém, por questões contratuais, a autorização não foi concedida. Com isso, Stevie Ray Vaughan, que tocou as guitarras na gravação original, foi convocado novamente ao estúdio e regravou a canção ao lado de Bowie. Os fãs mais jovens do astro, no entanto, se lembram de “Cat People” na trilha sonora de Bastardos Inglórios (2009), de Quentin Tarantino…

8) “Shake It” (3:49)
Faixa que encerra Let’s Dance, “Shake It” faz referências a Nova Iorque (cidade que já fora retratada pelo autor em outros de seus clássicos) e ao espírito de celebração que permeia todo o disco. Uma versão estendida de 5 minutos e meio desta canção foi lançada como lado B do single China Girl em maio de 1983. Especialistas apontam esta criação de Bowie como precursora de parte do trabalho desenvolvido pelo U2 na década de 1990…Definitivamente, Ziggy Stardust não foi único trabalho do camaleão que se tornou referência para vários músicos das gerações seguintes…

Serious Moonlight World Tour:

E, por fim, confira o universo de Let’s Dance em cena com a Serious Moonlight World Tour. Segue o setlist:

Parte I
1. “Look Back In Anger” (1979)
2. “Heroes” (1977)
3. “What In The World” (1977)
4. “Golden Years” (1976)
5. “Fashion” (1980) / “Let’s Dance” (1983)
6. “Breaking Glas”s (1977)
7. “Life on Mars” (1971)
8. “Sorrow” (1973)
9. “Cat People (Putting Out Fire)” (1982)
10. “China Girl” (1983)
11. “Scary Monsters” (1980) / “Rebel Rebel” (1974)
12. “White Light, White Heat” (1973)

Parte II
13. “Station to Station” (1976)
14. “Cracked Actor” (1973)
15. “Ashes to Ashes” (1980)
16. “Space Oddity” (1969) / Band Introductions
17. “Young Americans” (1975)
18. “Fame” (1975)

2 comentários sobre “David Bowie – Let’s Dance (1983)

  1. Escutei muito este album nas radios durante 1983/1984/1985, em algumas compilações tem singles editados (versões alternativas/reduzidas). Antigamente grupos de rock progressivo/grupos que flertavam com o “underground” ( musicas com mais de 5: 00 minutos ou mais (10:00/20:00 minutos ) tocavam em radios versões editadas (alternativas). Hoje quase não se vê mais isto. A industria da midia mudou muito
    nestes ultimos 30 anos. Meu pai falava que antigamente musica era toda “camuflada”.

  2. Ouvi muito este disco e sou fã de carteirinha do David , e posso dizer que este disco é mezzo – a – mezzo , Regular.Tem coisas boas e tem algumas partes que não gosto.Foi o disco do David que mais vendeu e um dos menos inspirados.Os anteriores foram muito melhores .Os depois deste foram fraquissimos, Ate a fase dance , pelos idos da decada de 90 onde David retorna com força inspiradora.

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