PCP Entrevista – Fernando Augusto Lopes (Floga-se)

Talvez você não conheça o Fernando Augusto Lopes. Até aí, normal. O sujeito, formado em cinema e desde cedo um apaixonado por música – do pai, colecionador de vinis e cassetes, herdou o gosto pelo jazz e pelo blues; do irmão mais velho, um fuçador, pelo rock alternativo – não é figura exposta na rede, do tipo celebridade blogueira.

Mas se você não conhece o Floga-se, aí, meu amigo, tá perdendo tempo. O site começou em 2006, como um “blogue qualquer-nota”, quando Fernando ainda era redator numa agência de publicidade. Dois anos depois, quando passou a trabalhar em casa, como frila, mudou a plataforma (para WordPress) e à partir de então a coisa começou a ficar mais séria, e, segundo as palavras do próprio, vem se aprimorando.

O PCP tem orgulho de apresentar agora uma entrevista feita via email com o Fernando. E o cara avisa, logo de cara: “Sou mesmo é um cara chato, que trata a internet como um boteco, onde você pode falar o que quiser, pra quem quiser ouvir, mas que força a barra pra ser ouvido”.

Então, sem forçar a barra, leia abaixo a conversa e buteco com o editor de um dos sites mais bacanas da rede. Divirta-se.

Fernando e o ‘botequim de ideias’

PCP: Você é um cara de personalidade forte e com opiniões contundentes e às vezes polêmicas. Está preocupado em agradar alguém ou ou foda-se?
Fernando: Não sei se eu tenho personalidade forte, não. O que eu sou mesmo é um cara chato, que trata a Internet como um boteco, onde você pode falar o que quiser, pra quem quiser ouvir, mas que força a barra pra ser ouvido. Daí, algumas opiniões deslavadas no Floga-se: se tem alguém lendo, eu tô falando minhas bobagens e sendo “ouvido”. Não quero convencer ninguém, só falar aquelas bobagens que faladas num boteco, entre amigos, podem geram uma baita discussão nem sempre amigável e transformar o momento numa coisa sacal, sem graça. No Floga-se, se o cara leu e não gostou, é só fechar a janela e me xingar, ou nunca mais voltar. Não ofende ninguém, é inofensivo. Então, não quero agradar ninguém, escrevo pra desanuviar a mente de opiniões, ao mesmo tempo que, pra não ser confundido como um “diário adolescente”, procuro informar. Se o leitor filtrar as opiniões, vai encontrar informação ali – e, muitas vezes, quero crer, relevante.

PCP: O Floga-se é atualizado diariamente com uma porção de novidades, tanto nacionais quanto gringas. Você dá conta de tudo sozinho? Como é a escolha pelo que é notícia?
Fernando: Faço tudo sozinho em termos. Em 2011 ou começo de 2012, não lembro, fui juntando um pessoal pra contribuir em colunas específicas. Começou com o Cadu Tenório, do Sobre A Máquina, de quem sou muito fã. O cara é um fuçador de drones, ambiências e afins e pensa em música, parece-me, o tempo inteiro. A coluna dele, a “Engrenagem”, é uma das que mais gosto de ler na Internet inteira, sem exageros, porque sempre aprendo algo novo, e porque ele acaba me apresentando um mundo completamente novo de sons. Tem o Renato Malizia, a quem chamo de “mestre”, escrevendo sua “Noise Waves”, com sons mais shoegazers, distorcidos e tals, porque ele é um das figuras mais ativas nesse mundinho alternativo paulistano. Promove shows, agita festinhas sem oba-oba, pra quem gosta de música boa, e tá se aventurando em trazer bandas gringas pra cá. Ele se trata como xiita e eu me divirto com o jeito explosivo-engraçado dele. Tem o Al Schenkel, com a “Esquizofrenizando”, mas que por conta do acidente, escreveu só duas ou três edições. Ele é um fuçador também. E estreou agora o Otavio Augusto, um cara que é leitor do Floga-se e propõs escrever sobre discos pop que ninguém se dá mais muita bola. Parece que rende um lance legal. Mas o dia a dia mesmo quem escreve sou eu. Como trabalho em casa, fico com o computador o tempo inteiro conectado e dá pra ver tudo o que tá acontecendo sem ferrar com o trampo. Pintou algo interessante nas timelines, eu vou lá, rapidinho, e publico. Agora, o que é “interessante” no meu julgo aos leitores do Floga-se é: eu gosto? Se sim, então, entra. Não publico o que eu não gosto ou não conheço minimamente. Assim, não pareço desonesto na hora de dar opinião. O caso é que tem um bocado de artistas que eu gosto e que faz merda e daí tenho que falar mal – e, de novo, pra não parecer desonesto. Mas isso é besteira e tem cada vez menos espaço, porque o lance mais importante do Floga-se é criar conteúdo próprio. Se a banda for nacional e estiver lançando, por exemplo, um vídeo, tem que ter umas aspas do artista. Esse papo de ficar copiando a NME, Pitchfork, Consequence Of Sound já fiz no começo do Floga-se, mas acho um saco. Tem uns trinta blogues “indies” (odeio esse termo) que fazem isso por aí, então, tô fora. Tento produzir uma entrevista aqui, um vídeo ali, cobrir shows, resenhar, essas coisas. É claro que entram matérias “frias”: fulano vai lançar disco novo, então vou lá coloco as informações desse disco – quando será lançado, as músicas, a capa, quem produziu…; fulano vai lançar um vídeo, então segue o vídeo com alguma curiosidade dele, essas besteiras. E tento fazer isso pras bandas nacionais e internacionais, no mesmo nível de importância, vendendo muito ou não.

PCP: Ter opinião acaba fechando portas na era do politicamente correto. Já tomou muitos tocos por isso (perda de anunciantes, briga com ‘colegas de profissão’, etc)?
Fernando: Perda de anunciante, não, por incrível que pareça. Nisso, pelo visto, quanto mais provocativo (não sei se é esse o termo), mais tem dado certo nesse sentido. Mas como não vou viver disso, porque acho que ninguém no Brasil vive disso mesmo e sei lá o modelo certo pra viver disso, então com ou sem grana entrando vou lá falar as minhas bobagens. Agora, briga com jornalista nunca teve. Nesse mundinho dos blogues e sites, você sabe bem, tem uma competição idiota: nego não te retuíta nem compartilha, porque… sei lá o porquê. Eu não tenho essas frescuras, o bloguezinho ou o sitezão fez algo legal, vou lá e compartilho. Não entro em competição com ninguém. Nesse caso, tô pouco me fodendo. E tem muita gente bacana, que merecia ganhar um cascalho bom com o trampo que faz: o Breno Oliveira, do Rock’n’Beats, baita cara ético, gente fina; o Marcelo Costa, do Scream & Yell; o Elson Barbosa, da Sinewave; o Diego Albuquerque, do Hominis Canidae; o próprio Malizia, com seu blogue, o The Blog That Celebrates Itself… Esses caras merecem ganhar uma grana boa pelo trabalho que fazem e por mais merda que eu escreva, nunca falaram nada, pelo menos não pra mim. Até porque são civilizados, adultos, democráticos e não vão ficar perdendo tempo com o que um cara como eu tem a dizer (risos). Agora, com banda… Nego que se acha “artista” é foda, sempre vem cobrar coisa que eu escrevi, pedir pra mudar matéria… Se não for algo muito escroto ou se for realmente ofensivo pra terceiros, aí eu faço questão de mudar, mas sempre são uns pedidos bizarros, porque é óbvio que é ego. Com banda, eu já discuti virtualmente algumas vezes, mas nada muito sério, só nesse nível: nego quer que eu mude algo que ELE disse e depois viu que não pegou bem, daí não mudo e o cara vem falar pra mim que não sou “parceiro”. Ora, não sou parceiro de ninguém. Banda nenhuma paga minhas contas, então não sou parceiro mesmo. Já cheguei a ouvir “então, não mando mais novidades pra você publicar, não dou mais entrevista”. Beleza, ué, não manda… Mas 99% é uma convivência bem legal.

PCP: Os 10 discos da sua vida, por favor…
Fernando: Pô, Bridges (risos). Posso colocar os meus “Os Discos da Vida”? Você sabe que essa coluna é a que eu mais gosto do Floga-se. Dava pro site ser só isso, porque é tão bacana ver algumas bandas e jornalistas dissecando seu passado pra expor dez discos que fizeram a diferença pra eles, que fizeram eles realmente se importarem com música. Acho que são dicas que podem valer pro leitor até como conhecimento mesmo. As edições de gente que admiro um bocado, desde moleque, como o Alex Antunes e o Barcinski, foram demais e fazem todo o esforço não remunerado de escrever o site valer a pena. As edições da Gaía Passarelli e do Tom Leão também são especiais… De todo mundo que participou foi demais. E tem um bocado de gente na fila pra participar, que vou tentando contato, enchendo o saco. Vem gente boa por aí.

PCP: Paixões extra-musicais?
Fernando: Apesar do meu fígado não permitir muito, sentar num boteco, ao sol, e tomar umas com os amigos e falar merda. A tarde inteira. E viajar com minha mulher. A melhor companhia do mundo.

Viajando…

PCP: De onde vem a implicância com os indies de festinha? Rolou algum episódio específico ou a coisa é generalizada?
Fernando: Não, é que eles são chatos mesmo. Não gosto de gente oba-oba. Até a felicidade pode ofender, ser invasiva. Mas é felicidade, e a gente acaba aceitando, porque achamos que felicidade nunca é demais. Ok, pode nunca ser demais, mas felicidade falsa é foda, é uma merda. Sabe aquele tipo de gente que você vê nas redes sociais comemorando a sexta-feira como se fosse um prêmio de loteria? Que tipo de vida medíocre pode ter uma pessoa que comemora uma sexta-feira? Será que ela odeia tanto assim o trabalho dela que não vê a hora da semana acabar? Dá pena. Mas o problema dos indies-festivos é que essas festas ocupam espaços. Onde dá pra tocar bandas novas e boas, tocam bandas coveres. O problema não são das bandas coveres, que normalmente são formadas por pessoas que tem lá suas bandas autorais, e essas pessoas precisam ganhar dinheiro. O problema tá no espaço que podia ser usado pra mostrar essas bandas autorais, porque os indies-festivos são preguiçosos, querem ouvir, por exemplo, um cover do Foo Fighters (como se o FF fosse indie) ao invés de uma banda nova brasileira. Aí, você vê um lugar como o Beco, em SP, abrindo espaço pra essas festas horrorosas com coveres horrorosos, porque os frequentadores querem consumir esse tipo de produto. Pra essas pessoas, tanto faz se tá tocando Lady Gaga ou Interpol, Television ou Kate Perry, eles querem jogar os braços pra cima e festejar. Quer dizer, não há problema nenhum em festejar, longe disso (risos). Não me leve a mal, é só que não se importam com a música, se importam é com a festa. Aliás, acho que essas festas têm que acontecer sempre, todos os dias, se fosse possível (nessa idade deles dá pra aguentar festas todos os dias). É só não me chamar. Passaram um tempo me convidando pra didjeizar nessas festas. Sempre respondia: “o que eu vou tocar vai assustar os frequentadores, é melhor não”; “Mas você não pode mudar o set?”; “não, porque aí seria uma festa onde eu não gostaria de estar”. Eu acho deprimente, mas é só eu não ir mesmo. Acho que dá pra compreender pensado na farofada na praia: pra quem faz é diversão, mas pra classe média, não é, é uma felicidade invasiva. O lance é que eu não acho farofada na praia uma coisa sem propósito, afinal você economiza uma grana se levar seu próprio frango com farofa pra praia. Dou valor a quem pensa racionalmente com o bolso sem ferrar os outros.

PCP: Cite aí três shows que não saem de sua cabeça.
Fernando: Não foram “os melhores”, porque isso sempre muda, mas o Echo & The Bunnymen, de 1987, em São Paulo, sempre tive esse show como o melhor da minha vida. Os do Jesus & Mary Chain, no Projeto SP, em 1990, principalmente o de 1º de julho. Lembro da data exata porque foi o dia do jogo histórico de Inglaterra 3 a 2 em Camarões, pela Copa na Itália, e eu e meu irmão vimos o jogo num boteco ali na Marechal Deodoro, tomando pinga com limão, ele com a perna quebrada. Teve o New Order, em 88, no Ibirapuera. Esse ano teve o A Place To Bury Strangers… É difícil falar só três mesmo.

PCP: Muita gente monta sites/blogs sobre música e acaba desistindo após um tempo por falta audiência/anunciantes. Algum conselho pra esses casos? O que te motiva a seguirm em frente mesmo quando a maré baixa e como manter a dignidade e não apelar e baixar o nível?
Fernando: É só querer fazer. Não dá, claro, pra trabalhar o dia inteiro fora e chegar em casa, na hora de descansar, querer “tirar o atraso” do dia, postando tudo. Não vai rolar, o corpo vai pedir arrego. Pra mim, é fácil, porque sou frila, trabalho em casa, e tenho clientes bem, digamos, compreensíveis, embora nunca tenha atrasado nada. E também sou seletivo, não posto trinta coisas por dia. As publicações do Floga-se eu tento com que sejam mais criteriosas, então dão mais prazer de fazer do que ficar copiando por aí. A minha motivação são coisa pequenas: alguém que fala bem do trabalho mesmo que não diretamente pra você e você acaba sabendo. E ver que você tá informando: tem gente que acaba sabendo das coisas pelo o que eu posto, isso é bacana. É raro, mas é bacana (risos).

PCP: Pra terminar, deixe um recado pros nossos leitores.
Fernando: Não me leve tão a sério – e o Floga-se, só um pouco a sério. Quando eu digo “se importar com a música”, não é nenhuma música específica, é aquilo que você gosta. E sempre tem um bocado de gente que gosta do que você gosta, é só achar o seu espaço e não se fechar nele. O PCP é um bom exemplo, tem uma amplitude enorme de ação: da MPB ao mais barulhento do mais barulhento, mas sem parecer um franco-atirador. Quem gosta de música acaba criando sua própria amplitude.

7 comentários sobre “PCP Entrevista – Fernando Augusto Lopes (Floga-se)

  1. Eu fui um dos que montaram um blog e acabaram desistindo. Muito por causa da questão do trabalho, que foi citada, mas acho que principalmente pela dificuldade de se criar uma discução sobre música (o que era o que eu buscava).
    Pelo menos vocês conseguem manter os seus, assim eu posso pelo menos ficar colocando meus comentários eventualmente.

  2. Vocês dois fazem um trabalho muito bom e bem importante para os independentes. Só quem tem banda sabe o quanto importa cada publicação. Sem jabá nem porra nenhuma, agradeço pela força, e continuem.

  3. Pingback: Sobre a Crítica [EM CONSTRUÇÃO] | Entrevista: Fernando Augusto Lopes

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