Pequenos Contos Psicotrópicos # 002 – Hell

3 da tarde. A última vez em que olhei pro relógio eram quase 8 da manhã e o sol ainda tava tímido, escondido atrás de uma montanha de nuvens. Agora ele tá a pino, fritando quem se atreve a encará-lo e lembrando a todos que ainda é verão. Quase o verão de Sam, eu diria.

Faz tanto tempo que a temperatura não cai que a cidade e sua população começam a dar sinais claros de colapso; dos supermercados às farmácias, das escolas aos hospitais, tudo funciona mal, e o povo parece estupidamente derretido.

Se no mundo real as estão assim, aqui nesse buraco sujo, mal iluminado e cheio de zumbis as coisas não são diferentes. Mas são piores, bem piores.

Porra, é verão. O que eu tô fazendo aqui junto com esse bando de ex-desconhecidos, agora melhores amigos? Eu devia estar lá fora, aproveitando pra me refrescar em alguma piscina, deitado embaixo de uma árvore lendo um bom livro, curtindo plenamente a vida e a juventude, mas nãããão, claro que não.

Já nem sei quanto tempo faz que o caldo desandou. Lembro que era sexta-feira, tinha saído do trabalho, passado em casa, dormido um pouco, tomado um banho e saído pra tomar umas. Encontrei os chegados, emendamos numa balada escura e enfumaçada e eis-me aqui, agora. Que dia é hoje mesmo? Domingo? Segunda? “Four days, five days, marathon…”.

Os amigos de sexta já desapareceram. Na verdade, desapareceram em algum momento da madrugada da própria sexta, mas digamos que certos estados alterados de consciência soltam a língua e facilitam as ‘relações sociais’; novos melhores amigos, aqui vou eu…

Nesse universo particular chamado junkolândia poucas coisas realmente importam, e um desses meros detalhes é quem tá do seu lado. Importante de verdade, nesse momento, são meus óculos escuros, já que o mundo lá fora me espera.

Não sei ao certo onde e como tudo isso vai parar, nem se vai parar. Por baixo de toda essa sujeira, o que me resta de dignidade é bem indigna, e a consciência, que está de volta, não está ligando muito para o que vem pela frente.

Como diria Lou Reed, “You know you’d better cool it down…”. Afinal, é verão, e o inferno, como bem sabemos, é aqui.

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