P.C.P Entrevista – Hierofante Púrpura

A história da entrevista com a banda Hierofante Púrpura começou no final do ano passado. Entre encontros e desencontros, o tempo foi passando, a demora para enviar as perguntas foi aumentando, e na sequência as respostas também demoraram a chegar.

Mas como o tempo é relativo, após esse período de gestação hoje o PCP finalmente pare a entrevista, concedida por email.

Entre as ideias trocadas, um papo sobre a cena roqueira de Mogi – prejudicada pela política -, internet, independência, face to face, canção inédita…

Confira a abaixo a conversa com o Hierofante Púrpura.

A primeira formação da banda

PCP:Começando do começo: como surgiu a banda e de onde vem o nome Hierofante Púrpura?
HP: A banda surgiu em 2005 com a triste (ou não) coincidência do término das nossas antigas bandas (Danilo e Felipe Lima eram do FUD, Diogo era do Noupe e Gabriel era do Agentes) e assim decidimos fazer novas músicas, botar pra funcionar ideias que estavam borbulhando.
Já éramos sim amigos, mesmo porque vivemos na provinciana Mogi das Cruzes, cidade pequena, com “algumas” cabeças pequenas também.

É um nome de origem Grega “ίεροφαντης” e possui diversas interpretações e definições significativas, tal como “o alto demonstrador da sacralidade” provendo da união de dois vocábulos gregos “ίερος” (sagrado, santo) e “φανειν” (mostrar, manifestar, fazer visível, fazer brilhar). Gosto do teor de ocultismo contido nesse nome, e gosto de divagar sobre o tema, me aprofundar, e aí quando eu saio falando (para quem questiona) fica uma miscelânea lisérgica misturada entre o não-entendimento da fonética do nome, tipo: “O quê? Elefante Púrpura? Yellowfante?” com a licença poética de se reinventar nomes para banda tais como “Papa Violeta” e “Celofane Púrpura”, acontece direto, principalmente com os amigos mais próximos.
Acho que a Psicodelia toda já começa exatamente aí, nessa sinestesia toda. Mas todas essas pirações foram agregadas durante os quase 6 anos de existência da banda, porque na realidade o nome surgiu em forma de homenagem aos grandes mestres da música experimental brasileira: João Ricardo, Gérson Conrad e Ney Matogrosso, o power-trio mais conhecido como Secos e Molhados, que revolucionou a música popular brasileira durante os anos de Chumbo no Brasil. No seu segundo álbum Secos e Molhados II lançado em 1974, consta uma faixa com o nome “O Hierofante”, maravilhosa canção, arranjos e guitarras rasgantes, vocal uivado e enraivecido de Ney, numa temática meio hard meio prog, paulada mesmo. A letra é de um poema homônimo de Oswald de Andrade, que diz assim:

Não há possibilidade de viver
Com essa gente
Nem com nenhuma gente
A desconfiança te cercará como um escudo
Pinta o escaravelho
De vermelho
E tinge os rumos da madrugada
Virão de longe as multidões suspirosas
Escutar o bezerro plangente

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Primeira formação do Hierofante Púrpura tocando em Mogi, em 2006

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PCP: Rola uma cena em Mogi? Lugares pra tocar, estúdios, etc? Vocês mudaram de vez para SP por falta de opções?
HP: Mogi já foi celeiro de grandes bandas como Aleister C. que fez turnês com o Sepultura em seu auge, Contraponto, Riverboys, Atomic Ant e mais uma porrada de gente que nos influenciou para começarmos a tocar.
Hoje em dia a coisa anda meio escassa digamos, não temos apoio público, a não ser na virada cultural paulista que eles “apoiam” um ou outro em um final de semana do ano, muitas leis municipais dificultam casas e bares pois praticamente “não se pode ter som ao vivo autoral” “cover ta legalizado pra playboyzada”…
Em 2010/2011 alguns integrantes mudaram pra SP mas o caos fez com que voltássemos pra terras mogianas, afinal estamos tão perto da capital que quando precisa, é só dar
um pulinho… e aqui a coisa é muito mais orgânica, isso influencia diretamente em nossas composições.

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PCP: Num papo informal pelo Facebook, vocês disseram que o hardcore pega forte em Mogi, e essa influência é mais nítida nos primeiros registros da banda. Quando a psicodelia bateu forte em suas vidas (e na sua música)?
HP: Realmente o hardcore já pegou forte em mogi, hoje em dia contamos nos dedos as bandas ativas na cidade, infelizmente é essa a realidade, nossas antigas bandas sim tinham grande influência de punk/hardcore mas acredito que nosso primeiro registro (Asucar Çugar – 2005) é o que de mais low fi psicodélico e calmo fizemos até hoje, foi gravado em Tascam (fita k7) e traz nossos devaneios lisérgicos, ainda faremos um show especial desse disco…

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Como um trio, fotografado por Hendi du Carmo

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PCP: Falando em influências, quais as principais? E de bandas novas, quais vocês andam ouvindo e recomendam?
HP:
Ouvimos de tudo, cada um da banda sempre apresenta um disco, uma dica, eu (Gabriel) por exemplo estou fissurado atualmente no The Pink Floyd – Early Singles, também ando ouvindo o disco novo do Wallace Costa, coisa linda de Deus…sei que Danilo e Helena sempre estão ligados no duo francês AIR,Velvet Underground,Serge Gainsbourg, o Diogo também sempre está ouvindo coisas novas e clássicos como Yo La Tengo, Lou Reed…

Atualmente eu particularmente indico o último lançamento do Lê Almeida (Mono Maçã), esse álbum novo do Wallace Costa (They Should be Soft), o novo do Single Parents, Alarde Oitoitenta é sempre um dos meus preferidos, tem a Repentina que lançou ano passado um disco bem bonito, Sin Ayuda que não para de lançar coisa nova, nossos parças mogianos do Conte-me uma Mentira, os Medialunas e agregados, o grande Jair Naves que sempre está surpreendendo, nossos irmãos do INI de Sorocaba e por ai vai, a lista é grande…

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PCP: Transe Só saiu em formato físico e digital, e foi totalmente disponibilizado para download grátis; vocês são bem ativos nas redes, mantendo fãs e interessados atualizados e munidos de novos materiais. Este é o caminho para novas bandas manterem a independência? Porque ainda tem gente reclamando dessa coisa de download, etc. Como viver de música hoje em dia?
HP: O formato cd é algo que acredito que não seja mais atrativo pra ninguém, afinal meus amigos pelo menos ou compram um vinil ou baixam na internet, muito difícil comprar um cd hoje em dia, a não ser na banquinha da Transfusão Noise Records/Popfuzz Records onde você encontra todo capricho por um preço mais que justo, nada além de cinco reais.

Viver de música é a pergunta que já está eternizada (risos). Acho mais fácil a gente colocar nas nossas cabeças que independente de qualquer coisa, qualquer modinha, qualquer dificuldade a ideia é jamais parar de produzir; esses dias mesmo vi um vídeo feito pelo Governo do Rio de Janeiro/Viva Favela com nosso parça Lê Almeida onde é mostrada a realidade, a resistência e o real valor que ele junto dos amigos dão ao simples fato de produzir,tocar,fazer acontecer, isso é muito mais que viver de música.
ASSISTAM ISSO: http://www.youtube.com/watch?v=qjVRoOYzjvo

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Já com a baixista Helena Duarte, fotografados por Gabriel Colombara

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PCP: A internet também parece estar impulsionando e unindo bandas em uma espécie de cena, compartilhando estúdios , shows, selos (e blogs, sites, etc). Antes não rolava essa sinergia, e por isso muita coisa boa foi ficando pelo caminho. Vocês acreditam que agora é a hora dos independentes?
HP: Sempre foi a hora dos independentes, as pessoas é que estão abrindo o olho só agora, conheço vários amigos que contam como era nos anos 90, todo lance de troca de fita k7 junto com as filipetas, do nada você mandava um postal pro nordeste com sua filipeta e sei lá, meses depois ela voltava do sul do país em outra carta, isso era uma loucura. Com a chegada da internet tudo mudou praticamente, tudo está mais fácil… mas de uma coisa eu jamais me esqueço que foi conversando com os amigos do INI que fizeram uma turnê de oito mil quilômetros, me disseram o seguinte, a internet ajuda demais nos contatos, mas nada como o “cara a cara”, e isso é algo que a internet nunca vai alcançar.

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O power trio ao vivo em SP

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PCP: E os planos para o futuro? Vem um novo álbum em 2012?
HP: Estamos sim com planos, em breve vai sair uma coletânea de artistas do selo Transfusão Noise Records com uma música inédita nossa, também vamos lançar uma outra música inédita no projeto REVERSOS do site (negodito.com) onde as bandas instrumentalizaram poemas de diversos artistas do Brasil todo, atenção a esse projeto que vai dar o que falar, muito interessante a iniciativa…
Também vamos lançar um split com a banda ALARDE onde serão 4 músicas, uma inédita de cada banda mais uma versão do Hierofante tocando um som do Alarde e vice versa…e pra fechar vamos lançar um DVD sobre as intervenções com o projeto “Guerrilha Gerador”, projeto idealizado pelos parceiros do INI de Sorocaba onde “invadimos” algumas viradas culturais e outros lugares bem instigantes…fora o disco novo que não sabemos certamente quando sairá, isso é surpresa (risos).

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PCP: Pra fechar, deixem um recado aos nossos leitores.
HP:
Primeiro agradecer demais o Pequenos Clássicos Perdidos. Tanto as perguntas como as respostas foram quase que um parto, mas finalmente estão aí, espero que todos gostem da entrevista e dizer que contem conosco sempre!
Vamos viver sem sentir, sem saber, só gozar… nos vemos por aí e deixa o mundo ser torto.

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Com Helena no baixo, ao vivo em SP

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