Especial PCP – Miles Davis

Relax with Miles..

Escrever sobre Miles Davis não é como escrever sobre qualquer outro fantasma da música. Porque ele assombra do junkie perdido pela cidade ao professor universitário sentado em sua casa; do jazzista erudito ao produtor de música eletrônica; da dona de casa que nem sabe o que é jazz à criança que assiste desenhos antigos.

Em uma longa e conturbada carreira, Miles esteve além dos ditames da moda musical, sempre um passo à frente do que era feito; e se o jazz saiu tanto dos guetos negros quanto das rodas de brancos endinheirados e cultos, a culpa é em grande parte dele.

 

 

Ao contrário da maioria dos artistas do gênero, Miles Davis não nasceu pobre. Filho de um dentista e de uma professora de música, foi para Nova Iorque ainda jovem (aos 19 anos) para estudar música na Juilliard School, e menos de um ano depois já havia largado os estudos para viver a realidade do que se tocava nas ruas e bares da grande maçã. Entrou então para a banda de Charlie Parker, e ali começava a nascer o mito.

O momento era do bebop, jazz caótico, quebrado, acelerado e recheado de improvisos igualmente caóticos. Miles estava no olho do furacão, mas inquieto e inconstante como era se uniu ao maestro Gil Evans e trouxe ao mundo então um estilo de jazz igualmente complexo e rico, mas mais acessível e lento, pontuado por solos longos e andamento tranquilo, o cool jazz.

 

 

The birth of the cool marca o início dessa era – que marcaria igualmente o jazz e toda a música dali em diante – e também nessa época (anos 50), Miles funda seu próprio quinteto (primeiro com John Coltrane, Philly Joe Jones, Paul Chambers e Red Garland; depois, já nos anos 60, com Ron Carter, Wayne Shorter, Wayne Shorter e Tony Williams).

 

 

Após lançar clássicos como Kind of blue (1959) e E.S.P (1965), Miles – já consolidado como o grande nome do jazz – embarca numa viagem por universos distintos, flertando com o rock, o funk, os amplificadores e a eletricidade, dando outro passo em direção a um futuro desconhecido, fundindo diferentes elementos a sua música modal e atemporal. Surge o fusion.

Discos como Filles de Kilimanjaro, In a silent way e Bitches brew mostram a inquietude de Miles em relação à música. Se sua vida era conturbada, por que sua música deveria ser linear? (ele foi viciado em heroína – vide a história do álbum Bag’s groove, teve um casamento entorpecido com a rainha do funk Betty Davis, etc, etc, etc).

 

 

Dali em diante, Davis – ou o pai da surdina – se manteve compondo, gravando e se apresentando – inclusive no Brasil. Esteve perigosamente ao lado do pop, reconstruindo músicas como “Time after time” (Cindy lauper) e “Human nature” (Jacko), mas sem nunca perder a majestade ou o temperamento ora introspectivo, ora explosivo, sempre intenso.

E hoje, 20 anos após sua morte, seu legado permanece intocado como um dos grandes tesouros da terra. Sua música continua se perpetuando, encantando gerações e abrindo a base de trompete muitas cabeças – incluindo a minha – trazendo sopros de divindade a nós, meros seres humanos.

 

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