P.C.P Entrevista – Os The Darma Lóvers

Os The Darma Lóvers são uma banda vinda da pequena cidade de Três Coroas, no Rio Grande do Sul, e são também a primeira banda de que se tem notícia aqui no Brasil a casar o rock and roll com a filosofia budista.

Completando 11 anos de estrada e tendo como base para suas belas canções o folk e a psicodelia, o grupo é capitaneado pelo ex-casal Nenung e Irínia, ambos budistas praticantes e figuras conhecidas na cena gaúcha há bastante tempo.

Abaixo a entrevista feita, via email, com o gente finíssima Nenung, principal compositor e vocalista da banda, que lançou ano passado Simplesmente, quinto álbum da carreira dos Darma Lóvers.

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Foto: Fernando Pires

P.C.P – Nenung, você está na cena de rock no RS há bastante tempo, e antes dos Darma Lóvers teve uma banda chamada Barata Oriental, que digamos assim, não tem nada a ver com os DL. Como se deu a transição de uma banda para a outra? O budismo o levou aos Darma Lovers ou vice versa?

Nenung: Bem, internamente encontro conexões claras da Barata Oriental com os Darma. Na Barata meu lance era berrar de indignação e querer provocar o mundo pra entender o que era essa tal de liberdade e se havia algum meio de ser livre nesse universo patenteado e cercado de padrões e corporação por todos os lados. Já Os Darma são resultado de uma outra fase do rebelde que buscava causa, tendo encontrado pessoas que souberam me responder e conduzir pra dentro das minhas respostas e descobertas com menos atritos e menos paranóias, menos necessidade de agredir e projetando menos inimigos ao redor. Diria que a Barata queria uma revolução no tranco e os Darmas sabem que é possível haver uma revolução pacífica. Tô encaminhando uma nova banda paralela aos Darma que se chama Projeto Dragão e traz de volta um tanto do lado rocker e umas doiderinhas…pro ano.

P.C.P: Uma curiosidade: Além de você e da Irínia, alguém mais na banda é budista?

Nenung: Budistas praticantes somos nós enquanto o resto da galera tem sua forma de conexão e interesse. Não é um pressuposto ser budista para estar na banda, obviamente. Não se trata de uma banda religiosa, mas sim de estar conectados na intenção de usar a música para trazer inspiração e menos automatismo para as pessoas e ter uma vibe condizente. Nisso cada um faz sua parte incrivelmente bem e nós como budistas fazemos a oferenda de som expandindo essa intenção para todos os seres e cantos desse universo. Uma união que funciona com intensidade e harmonia.

P.C.P: O termo zen rock foi criado por vocês mesmos? Você acha que ele define bem o som dos DL?

Nenung: Paramos de usar o zen rock já que a mídia pede sempre padrões que estejam de acordo com as categorias vigentes e nao é por isso que vamos complicar. Passamos a usar mais o folk rock psicodélico que é uma tendência mundial, nos faz menos específicos e define igual…na real estamos pouco ligando pro rótulo, queremos é levar música e idéias pra compartilhar com as pessoas.

P.C.P: Ouvindo os álbuns da banda é possível sacar uma grande influência do rock dos 60/70. Confere? Fale um pouco sobre as referências musicais de vocês?

Nenung: É , na mosca…acho que toda referência da banda está entre os 60 e 70 entrando no punk dos 80 e um pouco de 90…existe alguma coisa depois? Na minha formação tem muito Rolling Stones, Clash, Neil Young; a Irínia ouvia muita milonga, Elis, Chico. Os outros caras da banda tem de tudo na panela. E a sonoridade não é preconcebida. Foi ficando desse jeito até porque cantamos tudo em uníssono. Acho que o Jimi é um vileiro dos anos 60, o Th um baixista atual assim como o Sassá (baterista) e o 4Nazzo um guitarrista do futuro. Assim como misturamos influências brasileiras com tudo o que vier bater na porta. Por hora tô ouvindo e adorando blues africano.

P.C.P: Após o lançamento do disco Básico você partiu para um retiro de 2 anos com o Rinpoche. Como foi este período? Serviu de inspiração para o disco seguinte, Laranjas do Céu?

Nenung: Não serviu porque o Laranjas foi um disco composto e com os registros de voz gravados anteriormente ao retiro. Deixamos ele pronto pra finalizar depois. Mas muitas canções do Laranjas passaram a fazer sentido messmo depois do retiro. Foi bem interessante…mas a partir do retiro com certeza a possibilidade de compor ficou muito mais ampla e interessante que antes .

Foi o grande presente que poderia ter recebido nesta vida. Sempre gostei muito de mergulhar valendo na meditação e o Rinpoche sacou, me incluindo no grupo às vésperas dele partir do planeta. Uma oportunidade sem tradução possível, só muita gratidão.

P.C.P: Como foi e por onde passou a turnê internacional dos Darma Lóvers? Há planos para mais uma turnê por terras estrangeiras?

Nenung: A saída pela Europa foi demais, tivemos a grande chance de conhecer terras de lá convidados e apoiados por gente de lá, que nos mantiveram circulando e conhecendo a França durante um mês; além de podermos divulgar nosso trabalho, tocar e interagir com outros artistas. O que nos deu uma perspectiva mais real do que acontece pelo mundo, tanto de que não há lugar fácil de se fazer música como também da amplitude e facilidade de alcance da nossa música mesmo que num país de língua estrangeira. Os planos continuam na pauta, estamos sempre checando possibilidades pra partirmos pra outra em breve. Vamos ver pra onde sopra nosso carma…

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Foto: Fernando Pires

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P.C.P: Simplesmente foi produzido por Kassin e Berna, que parecem não ter mexido muito na sonoridade da banda. Qual foi a principal colaboração deles e dos demais convidados (Domenico, Dado Villa-Lobos, Jimi Joe) na concepção do disco?

Nenung: O Kassin foi quem mais participou da concepção do disco em si sendo ele o produtor musical; e termos todos a mesma convicção de querermos um disco 100% orgânico e com a intensidade da banda registrada sem muita colagem. O que nos levou a gravar toda base instrumental ao vivo com o Thomas Dreher, quando então o Domenico interviu magistralmente com sua bateria percussiva. O Jimi já é da banda e a harmonia da viola dele fez toda a diferença nos arranjos e na sonoridade; o Berna entrou mais na finaleira sugerindo cortes e intervenções sonoras sutis que fizeram uma bela diferença.

O Dado e o Moreno entraram com sugestões e com a sonoridade incrível que eles sabem tirar dos seus instrumentos, o Moreno no Cello e o dado no Zuo Gong que é uma harpa japonesa.

No final das contas foi um trabalho com registro muito profissional feito por um bando de grandes amigos.

P.C.P: Há uma música no novo álbum chamada “A Teia da Tela” que fala sobre a ‘vida virtual’ que muitas pessoas levam hoje em dia. Qual a relação de vocês com a internet e esse tal mundo virtual? E a cultura do download, vocês são a favor ou contra?

Nenung: A relação com a internet é como tudo mais, tem um ponto em que pode ser interessante e funcional, criar conexões e contatos bacanas, mas também tem um ponto a partir do qual se torna uma relação aprisionante, fixada e doente. A teia fala disso: se a relação que se busca é de consolo e compensação pela tela é uma frustração…nada substitui o contato e a troca direta com as pessoas e o mundo e tudo tem conseqüências mesmo que aparentemente filtradas pelos chips.

Com relação ao download acho que é uma condição inevitável de agora a forma como rola, mas não acho legal que as pessoas pressuponham ter total direito de dispor do trabalho de quem não quer tê-lo disponível gratuitamente. É um direito de quem produz música assim como de quem produz pastéis, vídeos, chinelos, o que for, determinar a forma e atribuir um valor ao resultado do seu esforço…é muito estranho que as pessoas queiram atropelar a opinião de quem cria por interesse próprio discursando ser uma liberdade inegável de cidadão. Acho legal no sentido de quem vê isso como um meio justo de divulgação, mas tem quem não veja.

Daqui estou vendo pra onde se move a maré virtual, sendo claro que as coisas não vão ficar paradas da forma em que estão hoje. Vamos levar ainda alguns anos pra achar o equilíbrio neste ponto mas acho que vamos aprendendo rápido.

P.C.P: Simplesmente foi lançado pela gravadora Dubas e é distribuído pela gigante Universal Music. Vocês tiveram liberdade total na hora de compor e gravar o álbum ou rolou algum tipo de pressão (principalmente por parte da Universal)?

Nenung: A Universal tem um acordo de produção e distribuição com a Dubas, não tem poder nem interesse de intervir diretamente em nada. O único risco é de o material ficar tão fora dos limites de compreensão e interesse deles que eles o reneguem e trabalhem mal, mas felizmente não foi nosso caso. Tivemos o disco ouvido no momento certo pelas pessoas de lá que se apaixonaram e capricharam na distribuição.

Já a Dubas é uma gravadora com princípios de liberdade e clareza, tanto que foram a primeira editora independente das corporações a surgir no Brasil, e só nos ajudou a estruturarmos o repertório e fazermos a ponte entre a produção artística e a produção física.

Podemos dizer com certeza que o Simplesmente é integralmente o disco que queríamos colocar na rua.

P.C.P: O meio roqueiro costuma ser associado ao ‘sexo, drogas e rock and roll’. Como é a relação da banda com esse universo?

Nenung: Trocamos a droga pela Yoga (risos)…também vivemos isso, todos da banda tiveram seu contato e conhecimento de um universo mais punk no sentido do desrespeito pelo corpo e do desvirtuamento da mente, a perda de uma referência de liberdade autêntica. É por isso que buscamos a meditação budista, por não ver sentido em buscar liberdade dentro de outra gaiola. Hoje sabemos que somos uma ponte entre esse universo e a possibilidade real de viver a música e o que existe em torno, sem ter que se rotular ou aprisionar porque é fácil interagir com a galera e saber como funciona, sem julgamentos morais e nem querer ser o certo diante dos errados. Só mostrar que é totalmente possível ser autêntico, criativo e livre sem aditivos.

A pouco tempo estávamos em São Paulo, o Jimi com uma camiseta dos Stones pediu uma água e o cara do bar falou “mas com essa camiseta você vai pedir água?” Foi uma brincadeira, mas que reflete essa prisão “alternativa”: se não sou careta sou doidão, sem escolha. Quem usa ou usou drogas busca a princípio por uma identidade que esteja além das convenções. O fato é que surgem daí outras convenções e a obrigatoriedade de padrões a serem afirmados, o que leva à mesma cadeia condicionada. Na nossa opinião a liberdade está além das dependências. É isso o que aprendemos a procurar realizar, inclusive no budismo que é um caminho que um dia deverá ser abandonado, no dia em que não houver mais EU nenhum pra ser conduzido ou protegido…mas por hora sexo, yoga e rock ‘n’ roll vai bem!

P.C.P: Pra terminar, deixe uma mensagem para nossos leitores.

Nenung: A melhor coisa a ser feita nesta vida é manter atenção muito presente e constante sobre aquilo que se pensa, que é e sobre o que se faz. Pra poder aos poucos entender que nada é independente, tudo traz conseqüências e portanto ‘nós’ somos nós e nosso ambiente simultaneamente. O que pode aos poucos dissolver essa noção de Eu mesmo como prioridade e importância diante dos ‘outros’. Isso tudo é um sonho causado por nossa intenção e ignorância, e portanto temos tanto a responsabilidade quanto a liberdade de ampliar nossa perspectiva.

Só quem amplia a visão é livre. Diante disso as realizações aparentes são bem pouco. Vale muito a pena repensar e refletir sobre as prioridades que nos contaram ser inquestionáveis…

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