PCP Entrevista – Wladimyr Cruz (Zona Punk)

Wladimyr Cruz, o Wlad, é figura fácil em conversas sobre o rock independente brasileiro. À frente do site Zona Punk desde o final dos anos 90, o jornalista paulistano – residente em Santos e torcedor do time da baixada – imprimiu um ritmo acelerado de crescimento ao ex-zine eletrônico, ampliando sua área de atuação para além da internet.

Hoje o Zona Punk atua na produção de shows e outros eventos, assina um selo e conta com mais ou menos 15 profissionais – entre jornalistas, fotógrafos, videomakers, etc – envolvidos nessas diversas áreas em que está presente.

Tudo isso, claro, é resultado de muito trabalho e não só de farras, comuns a quem está nessa área. Como diz o próprio entrevistado: “Tem drogas, tem brigas, mas tem cartório e cafezinho também. O ZP é meu ganha pão, meu sustento. É trabalho. Hard work. E não dá pra abrir mão, nem naqueles dias que você está sem saco.”

Então sem mais delongas, leia abaixo a entrevista que o grande Wlad – um dos responsáveis diretos pela existência do PCP – nos concedeu, via email.

Os homens com cara de mau – Mike Ness (Social Distortion) e Wlad

PCP: São muitos anos de história do Zona Punk. Falando em história, tem alguma(s) boa(s) pra contar (sobre bandas, tretas, etc)?
Wlad: São treze anos de cerveja, suor e sangue. Ok, mentira, é bem mais light e burocrático que isso. O que fazemos aqui tem a ver com lidar com público, e lidar com ser humano, todo mundo sabe, é difícil e imprevisível; então claro, tem coisas surpreendentes, pra bom e pra ruim, erros e acertos, merdas e glórias, mas no final, o resultado é sempre positivo, serve como experiência. A gente encontra pessoas e bandas legais, outros nem tanto, eventos de sucesso, e retumbantes fracassos. Tem drogas, tem brigas, mas tem cartório e cafezinho também. O fato é que eu faria tudo de novo e não abriria mão de experienciar nada disso, nem situações e nem pessoas, tudo faz parte do que sou/somos hoje.

PCP: O ZP foi um dos primeiros sites a abrir as portas para as bandas emo. Você ainda tem contato com os caras que ajudou a colocar na globo?
Wlad: Vamos primeiro colocar pingos nos is. “Emo”, de emotional hardcore, o lance do revolution summer, aquela coisa toda que vem do Embrace, passa pelo Sunny Day Real Estate, pelas bandas da Revelation, Doghouse, Jade Tree etc, é uma coisa. Ai teve aquele negócio doido em 2003, 2004, que chamavam de “emo-core” aqui, que foi uma onda de bandas de rock jovem, de musicalidade pop – com raízes na cena independente – que explodiu e virou um reboliço por 2, 3 anos graças a uma mega-exposição de mídia, totalmente equivocada.
O grande lance dessa onda foi que ela foi a primeira a gerar renda alta na cena independente, e até pelo momento histórico da (morte da) industria da música, deu uma bagunçada nos conceitos de independente e mainstream. Um monte dessas bandas assinaram – desde as mais óbvias tipo NxZero e Fresno, até as mais improváveis, como o Dead Fish – e a maioria delas caiu do cavalo tempos depois, o que mostrou o oportunismo do momento e o deslumbre inocente de muitos deles. A maioria dos grupos dessa geração se desfez, e os meninos de visual andrógino hoje renegam o passado e tem outra postura.
Em suma, aqui no ZP a gente sempre teve portas abertas pras bandas independentes, desde a de grind-core extremo até esse tipo de grupo mais pop, rock teen; e era algo quase impossível de fugir já que foi algo que veio muito forte no meio. De 10 bandas, 9 tinham franja e cantavam verbos no infinitivo. Alguns se tornaram amigos sim, outros nem tive contato, alguns se mostraram talentos e são uma realidade no mercado até hoje; outros – a maioria – pura empolgação adolescente. No final das contas, disso ai restou pouca coisa, mas as marcas foram profundas em vários níveis. O tal do “emo” reverbera até hoje, pro bem e pro mal.
Com a gente aqui, sempre up-to-date, acompanhamos onde a gente achou cabível, onde e o que tinha a ver com a cena independente, e não necessariamente aquilo agradava, mas era uma realidade; como logo depois veio a onda dos grupos “coloridos”, depois o metal-core cristão, depois as bandas com ukulelê, e agora nem sei mais o que é, mas já já vai ter mais alguma coisa jovem relacionado ao pop-rock que vai vender horrores. Não é pro meu bico, não consumo, mas faz parte.
E sim, o Fiuk ainda curte minhas postagens no Instagram haha. É um bom garoto.

PCP: Hoje já dá pra viver só do site? Me lembro que alguns anos atrás você fazia legendas pra ‘filmes adultos’ (risos).
Wlad: Não eram só adultos, tinha filme bíblico e filmes de terror também (risos). Começava o dia com o Smilinguido e terminava com sexo entre anões. Mas sim, hoje dá sim pra viver só do site, na verdade desde 2004. E nem é “só do site”, pois tem um monte de outras coisas. Selo, distro, festa, atacando de DJ, um monte de ramificações que, no final das contas, seria sim “vivendo do site”, já que tudo leva sua marca à frente.

PCP: O que você tem ouvido atualmente (fora do trabalho)?
Wlad: Trabalho e prazer acabam se misturando. Ouço muita coisa por curiosidade, e passo o dia inteiro ouvindo música, acabo assim encontrando coisas boas e novidades para meus ouvidos. Gostei muito do Hives novo, o do Smashing Pumpkins novo é incrível também – pra mim o mais legal de 2012 por enquanto. Estou ouvindo bastante coisa da Trojan, aqueles boxes antigos. Gostei do Green Day novo; to curtindo a onda de bandas Oi! novas, tipo o Booze And Glory e o Harrington Saints; desenterrei uns discos do Iron Maiden; o “Tarkus” do Emerson Lake And Palmer…voltei a ouvir bastante o primeiro do Stone Roses também, acho que de tanto falarem deles desde o retorno. Mas no fim das contas, termino ouvindo as mesmas coisas de sempre: Kiss, Ramones, Social Distortion…

Wlad e seu harém, aka The Donnas

PCP: O ZP recebe bastante material de bandas novas, não? Como você avalia a qualidade do que vem sendo feito pela molecada? Dá pra apontar algum nome como ‘promessa’?
Wlad: Não existe promessa né? Prometido a ser ‘next big thing’? Tem bandas que a gente vê que vai dar certo comercialmente com determinado trabalho. Senti isso com o Rancore e o seu “Seiva”, por exemplo, e acho que foi o último nesse sentido. Agora, tem bandas legais sim, em todos os estilos e perfis. Estão por ai, nos shows, é só se mexer, procurar, que aparecem. Ficar ouvindo em rede social eu não tenho saco, o volume é imenso, mas se vejo ao vivo e me prende a atenção, vou atrás.
Curti muito uma banda chamada The Tries, de SP. É power-pop, Mod, The Jam, rock inglês, The Who, Stones essa coisa toda. Gostei também do The Leprechaun, algo meio celtic/folk com punk e pop, o elo perdido entre o Pogues, o Flogging Molly e o No Doubt. Tem também o Clave De Clóvis, uma turma na pegada das bandas da Vanguarda Paulistana, da época do teatro Lira Paulistana. Enfim, são bandas que eu achei bem bacana; e não to falando pra fazer média ou amizade com os caras, já que nem os conheço em sua maioria.

PCP: Em todos esse anos de atividade do ZP muitos outros sites parecidos surgiram e desapareceram. Qual o segredo para se manter na ativa por tanto tempo e continuar crescendo?
Wlad: A maioria das pessoas fazem sites e blogs por esporte, por puro hobbie. Não é meu caso. O ZP é meu ganha pão, meu sustento. É trabalho. Hard work. E não dá pra abrir mão, nem naqueles dias que você está sem saco. Esporte, hobbie, cansa; as pessoas largam, crescem, casam, vão cuidar da vida. Trabalho é sobrevivência.

PCP: Planos para o futuro?
Wlad: No âmbito profissional, estamos com alguns lançamentos engatilhados. Um livro do Green Day; o CD de demos do BLiND PiGS e seu disco novo em vinil, DVD do show das bandas Carbona, Magaivers e Gramofocas…um monte de coisas legais, além das festinhas, shows e oba-obas em geral.
No pessoal, pode soar hippie, mas só quero paz e muito amor, pra todos nós. Menos mimimi, mais ação.

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